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FLUÊNCIA, DISFLUÊNCIA, GAGUEIRA

 

Silvia Friedman

silfriedman@terra.com.br

Resumo

Este artigo apresenta uma análise das relações entre fluência, disfluência e gagueira. Primeiramente procura-se desmitificar a idéia da disfluência como algo anormal à fala dos indivíduos, mostrando como ela compõe um par natural com a fluência, quando considerada dentro do contexto do movimento das emoções humanas nas relações de comunicação. A seguir, expõe-se as condições sob as quais o comportamento de fala se transforma em gagueira, sendo esta entendida como uma forma de fala que causa sofrimento ao falante.

Introdução

Para poder compreender adequadamente a disfluência infantil considero necessário, antes de mais nada , desenvolver uma análise da relação existente entre o par fluência-disfluência , procurando entender também os limites entre o que as pessoas em geral consideram normal e anormal na questão.

O primeiro passo a considerar é o de que a disfluência é um aspecto normal da fluência de qualquer falante.. Ao longo do fluxo fluente de um período de fala, qualquer indivíduo está sujeito a ter momentos de disfluência,porque os movimentos da fala são s mais finos que o nosso corpo pode realizar, se encadeiam em variações sucessivas em questão de segundos, para articular as palavras que expressam nossas idéias e isso, por si só, já é suficiente para justificar algumas falhas eventuais. Além disso, outras circunstâncias podem interpor-se na relação pensar e falar criando disfluências, tais como a evocação concomitante de duas palavras possíveis para expressar uma mesma idéia, ou a censura de uma palavra provocando a rápida interposição de outra de mesmo significado, ambas passíveis de provocar um breve bloqueio na emissão,na medida em que a articulação do falante oscila momentaneamente entre a produção simultânea de movimentos diferentes. É freqüente também o aparecimento de prolongamentos do tipo ª...,e...., hum...,ou repetições como é,é,é,i,i,i,u,u,u usados como recurso para organizar ou evocar um pensamento ou palavra ao longo da produção do discurso.Podemos ainda referir o quanto é comum ouvir das pessoas declarações de que quando estão nervosas ficam gagas, ou encontrar este fenômeno explorado em descrições de personagens na literatura, em encenações teatrais, telenovelas, etc. É do conhecimento popular que quando um falante se sente intimidado, inseguro, nervoso enfim, sua fala pode apresentar repetições, hesitações, bloqueios, denunciando sua emoção.

É possível discorrer muito tempo sobre a existência natural de disfluências na fluência, apresentando exemplos do cotidiano e mostrando, apenas pelo senso comum como estes dois aspectos se constituem numa unidade normal na vida dos falantes.

Para aprofundar o que está por trás desta questão, analisemos um pouco a emoção humana em suas relações com o falar e com o processo de desenvolvimento do indivíduo, fazendo em seguida considerações sobre as implicações destas relações nas manifestações articulatórias das crianças e do adulto.

Fala, emoção e desenvolvimento do indivíduo

De acordo com Wallon (Martinet, 1972), a emoção é uma manifestação que envolve necessariamente alterações de tônus, sendo que essas alterações acionam conjuntamente tanto o tônus visceral quanto o esquelético. São essas alterações específicas que compõem em nós as sensações relativas à emoção. Se nos auto observarmos, poderemos perceber que cada emoção que se produz traz alterações peculiares da mímica facial, do tônus corporal geral, do ritmo cardíaco, respiratório, al´em de outras alterações específicas a cada emoção.

Podemos entender, então que toda vivência emocional é passível de interferir com a condição muscular e, portanto, motora do corpo, estendendo-se também à função respiratória.

Isso importa, se considerarmos a atividade de fala percebendo que ela implica exatamente no uso da respiração e da motricidade para acontecer. Podemos então, argumentar que existe uma relação entre a ativação da emoção e a probabilidade de alteração da fluência,dando um sentido lógico à popular associação entre nervosismo e gagueira, anteriormente mencionada.

Temos que considerar, ainda de acordo com Wallon (Martinet,1972), que a emoção é a primeira forma de manifestação possível para o indivíduo no início da sua vida. Assim, as sensações do próprio corpo provocadas por estímulos internos, como fome, dor, ou externos, como frio, calor, levam o bebê à modificações do tônus que expressam seu prazer ou desprazer, através de movimentos corporais tensos ou relaxados e das mímicas faciais, permitindo as primeiras trocas com o ambiente e com os outros.

Por ser a criança um ser que está em desenvolvimento, o uso que faz das regras da linguagem é mais incipiente e inseguro, quanto mais jovem for o indivíduo. O domínio motor da fala, bem como o domínio das regras da língua, estão sendo progressivamente incorporados e automatizados. Isto implica em que inadequações são inerentes a este processo e naturais.

Deste modo, ao tentar expressar-se a criança, por sua própria natureza, está mais suscetível à influência das emoções que acompanham a sua relação com a realidade, por não ser capaz ainda de realizar as transformações que a racionalização das situações permitiria.(Wallom, 1986)

. Se as reações emocionais, como vimos, envolvem alterações tônicas e se as crianças tendem a uma considerável quantidade de manifestação emocional nas suas reações, podemos concluir que quando tais reações as levam a falar, há aumento de probabilidade de desorganização motora, favorecendo o surgimento de bloqueios, repetições, hesitações, prolongamentos ou até ausência de fala, conforme a emoção.

O significado de tal conhecimento nos leva a defender que não é para a fala que devemos olhar quando a criança está disfluente, mas sim para a emoção que ela manifesta, procurando sua coerência na relação da criança com o meio que a cerca , lembrando, conforme nos mostra Wallon, através da obra de Martinet, que não há situações emocionantes em si, mas que a produção da emoção depende dos julgamentos introjetados pelo sujeito às situações, a partir do que aprenderam em suas relações interpessoais.

Encontramos aqui uma explicação para o velho postulado da disfluência fisiológica, ou disfluências normais na fala das crianças, referidas por vários autores que se dedicaram a analisar gagueira como Johnson (1959), Sheehan(1975) e Van Riper (1973).

Conforme podemos observar em nós mesmos, qualquer manifestação emocional altera tanto o ritmo respiratório quanto o tônus geral do corpo, podendo interferir com a motricidade, dependendo da atividade com que estamos envolvidos. Deste modo, falar enquanto estamos emocionados contém potencialmente a condição de nos tornarmos disfluentes. Disso podemos concluir que a disfluência é um fenômeno normal, que pertence à esfera das reações emocionais e este aspecto passa a ter importância fundamental para a compreensão do ato de falar , no sentido de superar a visão alienada, bastante freqüente, da disfluência infantil, como uma manifestação patológica.

Além disso, enfatizando o conhecimento de que a disfluência é um fenômeno normal da fluência, decorrente do movimento da ativação emocional no sujeito que fala, consideremos ainda que o grau de emocionalidade possível às reações do individuo não é relativa apenas à sua idade, mas também depende da maneira como o indivíduo vê as situações que o atingem. Assim, o movimento da ativação das emoções não gera disfluências na fala apenas na infância, mas durante toda a vida. Segundo os estudos de Wallon(1986), o fato da esfera cognitiva envolver a emocional cada vez mais e melhor, a medida que se atinge a vida adulta, não significa que a ativação emocional deixe de acontecer. Deste modo, a relação entre a emoção e a cognição pode dar-se em diferentes graus de harmonia ou desarmonia para os sujeitos, exatamente, porque a partir do repertório cognitivo que possuem podem ser levados a querer camuflar a emoção que certa situação lhes evoca. Isto quer dizer que muitas vezes a emoção pode por assim dizer, desempenhar um papel subversivo na manifestação do indivíduo, que por desejar, por exemplo, apresentar-se socialmente, dentro de um padrão ideal de calma, quando na realidade está nervoso, mostra tremor nas mãos, bem como seqüências disfluentes de articulação ou trocas involuntárias de palavras, etc., revelando estados subjetivos que, na verdade queria ocultar. De acordo com o que vimos, isso ocorre porque o indivíduo quer impor um controle excessivo às suas emoções, o que por sua vez, acaba por produzir outras manifestações incontroláveis ( Watzlawick,1977).

Abre-se aqui um parênteses para explicar os critérios que norteiam o uso de conceitos de autores pertencentes a quadros de referência diferentes, como é o caso de Watzlawick, Beavin e Jackson, em relação à Wallon, na elaboração de uma mesma explicação. Concordando com Wallon à respeito da indissociabilidade entre o biológico e o social, vistos como complementares desde o nascimento do indivíduo, de tal modo que “ a vida psíquica só pode ser encarada tendo em vista suas relações recíprocas”(1986,8), encontramos ressonância nas análises de Watzlawick, Beavin e Jackson, no que se refere a uma clara descrição do social, caracterizando no padrão de interação, o paradoxal, articulando-se com uma produção psíquica particular, a de tentar o espontâneo, conduzindo a um padrão de comportamento peculiar, o de produzir algo não desejado. Assim, deixando de lado a lógica interna da construção do pensamento dos autores e assumindo que se trata de construir a partir deles um saber em relação às questões da fluência e disfluência articulatórias, temos que, embora do ponto de vista geral as obras pertençam a quadros de referência distintos, no particular é possível encontrar interessantes pontos de articulação, conforme podemos ver ao longo do artigo reforçando, que a visão de homem aqui assumida é a proposta por Wallon, dentro da qual se utilizam os conceitos dos demais citados.

Encerrando o parênteses e retomando a explicação anterior, temos então que apesar do repertório cognitivo que o indivíduo possa possuir, a situação de alterações do tônus devido a vivências emocionais, sobrepondo-se à fala, ocorre tanto na infância como na vida adulta, criando disfluências normais, bem como outras manifestações possíveis, tais como rubor, sudorese, taquicardia, etc.

Até agora estivemos considerando as condições naturais de alternância da fluência e disfluência no padrão da fala das pessoas. A conscientização destas condições compreendidas dentro das inúmeras possibilidades das manifestações motoras humana, nos parece fator fundamental para os profissionais ligados à saúde e educação da criança, no sentido de não estigmatizarem seus comportamentos a partir de visões fragmentárias do indivíduo, que no que diz respeito à atividade de fala, vêm a disfluência desvinculada de sua continuidade com a manifestação emocional e com as exigências do meio social, articulando a outro sim, com um pré julgamento de inadequação, perdendo de vista, deste modo o ser humano em sua totalidade biopsicossocial.

As condições de formação de uma fala com gagueira entendida como uma forma inadequada da produção articulatória

Consideremos inicialmente que o conjunto de conhecimentos sobre a relação entre a emoção e as atividades humanas, em especial a atividade articulatória, ou fala, até aqui analisados são de caráter científico e que não é baseado neles que os adultos, via de regra, reagem às formas de falar das crianças. A forma lúdica pela qual o adulto reage às disfluências normais à fluência das crianças é a que podemos situar dentro da “ideologia do bem falar” (Friedman, 1986). Vendo preferencialmente a criança como um adulto em miniatura e possuindo uma imagem ideal projetada para ela, inclusive de falante, é freqüente que o adulto, alienado das contingências próprias ao desenvolvimento da fala, reaja demonstrando não aceitação tanto às disfluências, quanto Às outras manifestações típicas da fala ou do comportamento infantil, em geral.

AS primeiras formas de manifestação do sujeito, que como vimos estão presas à esfera do emocional, vão se modificando, adequando-se ao modelo apresentado e esperado pela sociedade, a medida que este vai aprendendo a realidade que o cerca, se apropriando das normas, regras e valores instituídos que compõem a ideologia do seu meio.

Isto é feito através de relações de comunicação e das atividades práticas que se desenrolam entre o indivíduo em desenvolvimento, os outros responsáveis por ele e o meio em que se encontram (Malrieu,1977)

Nesse processo, ao mesmo tempo que o indivíduo vai se apropriando da realidade através das palavras e dos atos, o que é o mesmo que dizer, vai se apropriando da ideologia que explica a realidade, ele se apropria de si mesmo como alguém que ganha sentido à medida que encontra seu lugar no quadro de referência desta realidade, formando sua identidade, na relações com os outros.

Se neste quadro de referência, em função da ideologia do bem falar que pode estar presente em suas relações, a criança vivencia repetidas situações de não aceitação do seu padrão natural, espontâneo de ala e procura reagir tentando falar bem, obedecendo à solicitação do meio e tentando se enquadrar à exigência, ver-se-á colocada no que se pode considerar uma situação de comunicação paradoxal, conforme descrita por Watzlawick, Beavin e Jackson (1971) em seu Pragmatics of Human Communication.

A compreensão deste tipo de relação de comunicação, conforme pode ser verificado nos achados da pesquisa sobre a gênese da gagueira (Friedman, 1986) é de fundamental importância para a compreensão da gagueira.

Assim, a situação paradoxal, de acordo com os autores citados, é entendida como aquela em que o indivíduo se encontra numa posição de dupla vinculação com a realidade, constituída pelo ato de não poder abandonar tal situação, (1º vínculo), nem permanece satisfatoriamente no quadro de referência por ela estabelecida, ou seja, lidar adequadamente com ela (2º vínculo).

Além disso, para que tal situação ocorra, é necessário que haja uma forte relação de dependência psicológica e/ou biológica entre as pessoas envolvidas. O paradoxo constrói-se então, na medida em que alguém afirma algo, e em seguida afirma algo sobre a primeira afirmação, sendo que, embora a comunicação tenha realidade pragmática, as afirmações são contraditórias entre si. Segue-se ainda que o receptor da mensagem está impedido de ver tal contradição e via de regra, o emissor também, sendo que neste contexto, o receptor, graças à forte ligação que tem com o receptor, tenta obedece-la.

Nossos estudos (Friedman, 1986) mostraram que na história de fala de pessoas adultas que se consideram gagas, bem como no discurso de pais e professores que se queixam da gagueira em crianças, sempre manifestam-se os ingredientes da dupla vinculação.

Isto ocorre porque a atividade de fala, do ponto de vista articulatório, é, como já mencionamos, uma atividade espontânea e a não aceitação de sua forma, contém potencialmente a possibilidade de levar o sujeito a interferir com sua produção. De acordo com Watzlawick, em El Lenguage Del Cambio (1977, p. 91), a tentativa de realizar de modo planejado comportamentos que são de natureza espontânea não só não conduz à realização adequada dos comportamentos, como também dispara outros, não planejados e não desejados. Deste modo, a não aceitação do padrão de fala coloca o sujeito numa situação paradoxal, desde que, como já referimos, isto aconteça em condições em que os outros sejam psicologicamente importantes para ele, porque solicita-se ao sujeito que fale (1ª afirmação), porém, de outro modo (2ª afirmação) inaugurando assim em sua mente a ingênua possibilidade de tentar planejar o espontâneo. Desta maneira, a comunicação organiza-se de tal modo que o indivíduo, nem pode abandonar a tentativa de falar (uma vez que os outros significativos lhe solicitam que o faça), nem pode faze-lo de modo a atingir o objetivo, que é falar de acordo com o ideal solicitado.

Ao assumir um ponto de vista paradoxal, que se perpetuará enquanto não for percebido como tal, o indivíduo fica preso em um circulo vicioso. Quanto mais interferir com seu padrão de fala espontâneo, na busca de atingir uma fala ideal, menos conseguirá tal padrão, o que naturalmente o levará a novas interferências, condicionando seus hábitos de fala à este mecanismo. É importante salientar ainda, que, os outros com quem o indivíduo se relaciona, ficam capturados no mesmo círculo vicioso, porque vendo que a produção da fala do indivíduo não melhora, tendendo com o tempo, inclusive a piorar, reafirmam a solicitação de que fale bem, reforçando assim o quadro.

Através desta linha de raciocínio podemos explicitar como se engendram comportamentos classicamente descritos pelos diversos autores conhecidos da gagueira, como: tensão ao falar, antecipação de falhas, aceitação da gagueira, ou truques para falar bem. Assim dentro das circunstâncias de fala que, como procuramos mostrar, impedem a sua própria eficiência, encontramos uma fonte de tensão possível de gerar mais tensões, à medida que, quanto mais o sujeito tenta alcançar seu objetivo de falar bem, menos o consegue. Isto, por um lado, permite ao indivíduo antecipar, ou prever, a ocorrência de novas falhas, o que colabora com a possibilidade de aumento de tensão para falar e por outro, conduz á busca de mecanismos de evitação, como trocas ou interposições de palavras, omissões de fonemas, inspirações e expirações forçadas movimentos associados com o corpo, enfim, toda a sorte de comportamentos que a mente possa criar, com a finalidade de alcançar um padrão de fala ideal, imaginado.

Considerando o estudo sobre a formação da identidade (Ciampa, 1984,1987) entendida como um processo de desenvolvimento que se dá necessariamente a partir do conteúdo das relações interpessoais. Das crenças e valores por elas veiculados através da linguagem verbal e das práticas sociais, sendo por estes em grande medida determinada e articulando-o à situação de não aceitação pelos outros de um certo padrão de fala natural que vai se condicionando À forma de falar, a qual, por sua vez, reforça a não aceitação do outro, levando a própria não aceitação da fala, vemos estabelecido um padrão de relações de comunicação possível de determinar a formação de uma identidade de si como mau falante, que passará a compor com os demais elementos constitutivos da identidade do sujeito.

Através da Análise Gráfica do Discurso, desenvolvida por Lane (1989), onde se busca graficamente s núcleos de pensamento, ou temas expressos no discurso através das palavras de mesmo significado, obedecendo sempre a continuidade do discurso pela utilização de números para marcar as unidades de significado (sujeito predicado) que o compõe, realizamos um estudo da história de vida e de fala, obtida por meio de relato, de 7 sujeitos que se queixavam de gagueira (Friedman, 1986) e pudemos observar que dentro das condições acima descritas perpetua-se a infrutífera tentativa de falar bem e estabelecer-se a consciência do indivíduo como gago, sustentada pela imagem de si como mau falante.

Conclusão

Desta forma, assim como na disfluência dissemos que o que se deve olhar não é a fala e sim a emoção disparada no indivíduo, na gagueira, o que se deve olhar, novamente não é a fala e sim o movimento de variação dos conceitos ligados a sua auto-imagem, que ocorre, conforme os valores que o indivíduo atribui a si mesmo e às situações em que se envolve, nas relações que estabelece com o seu meio. Isto nos permite compreender as variações de tônus, vinculadas às variações emocionais do indivíduo, influenciando a sua atividade de fala ao gerar padrões com a maior ou menor tensão ao falar.

O padrão de fala variará de acordo com a maior ou menor necessidade de falar bem, de planejar a fala para atingir aquele padrão ideal socialmente engendrado de camuflar a negativa imagem de si como mau falante sentida nas situações. Assim pode-se compreender porque na sala de aula, ou em outros lugares públicos pode parecer ao sujeito, impossível falar, enquanto que, sozinho, em seu quarto ele pode ser ótimo orador.

Temos então, que o conteúdo da imagem de si como mau falante é aqui apontado como o elemento fundamental de distinção entre uma manifestação de fala disfluente natural e uma gaguejada. Entende-se que é a imagem de si como mau falante que está na base de uma produção articulatória tensa, truncada, bloqueada, porque motivando o indivíduo que a desenvolveu a ocultá-la, leva-o a planejar o espontâneo.

De acordo com Henri Wallon (1986) e Malrieu (1977), consideramos que é por volta do terceiro ano de vida que a criança começa a separar a consciência de si da consciência que tem do outro. Isto é, começa a perceber-se como um ‘eu” diferente do outro. Podemos então considerar que é a partir dessa época, de acordo com o padrão de relações que se desenvolvem em relação à sua fala, ela pode desenvolver a imagem de si como mau falante, começando a evidenciar a luta para falar.

Não é espantoso, portanto, como parece a alguns terapeutas, encontrar crianças entre 2,5 a 4 anos apresentando movimentos de muito esforço para falar, como voz bloqueada, pescoço tenso, boca fixa na postura de algum fonema e um movimento de jogar o corpo para frente, para finalmente dizer a palavra que desejava expressar, que geralmente está associada a um verdadeiro pânico de família diante do comportamento.

De tudo isso, entretanto, tiramos uma conclusão positiva. A de que estão perfeitamente ao nosso alcance intervenções na realidade, que promovam o desenvolvimento harmonioso da fala das crianças, na medida em que saibamos como estimular e orientar a formação de uma imagem positiva de falante, evitando a falácia de simplesmente tratar de ajudar o indivíduo a falar bem, reproduzindo e reforçando assim o padrão gerador de fala tensa, de evitação de fala, ou seja, gagueira.

Referências:

Ciampa, A.C. (1984) – Identidade. Em Lane, S.I.M. & codo, W ( org) Psiclogia Social. O homem em movimento. São Paulo. Brasiliense

Ciampa, A.C. (1987) – Estória de Severino e história de Severina. São Paulo. Brasiliense.

Friedman, S. (1986) – Gagueira: Origem e Tratamento. São Paulo. Summus Editorial

Johnson,W & Associates ( 1959) The onset of stuttering. Minneapolis: University of Minnesota Press.

Lane,S.T.M. (1989) Uma Análise Gráfica do Discurso. Psicologia e ociedad, 4, 37-41.

Martinet, M. (1972) Teoria das Emoções. Uma introdução à obra de Henry wallon. Lisboa. Moraes Editores.

Malrieu, P. ( 1977) Lenguage y Representacion. Em V.V.A.A. La gênesis Del Lenguage. Su aprendizage y desarrolo. Madrid. Pablo Del Rio, Editor.

Sheehan, J.G. ( 1975) Conflict theory and avoidance reduction therapy. Em Aisenson, J, ( Ed ). Stuttering: A second Symposium. New York: Harper and Row

Van Riper, C. ( 1973). The treatment of stuttering. New Jersey, Prentice Hall.

Wallon, H ( 1986) Henry Wallon. Em Brulfert, J.M. & Werebe (org). São Paulo, ed Ática.

Watslawick, P.,Beavin, J.H. & Jackson, D.D. ( 1967) Pragmatics of human communication. New York: W.W. Norton.

Watslawick, P. ( 1977) , El language del cambio. Barcelona: Herder.

Publicado em: Revista Interamericana de Psicologia. Interamerican Journal of Psychology, 1991. Vol 25, n. 1.pp 83-92


 
 
 
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