Gagueira Online http://www.gagueiraonline.com.br/blog Blog Fri, 14 Mar 2014 18:53:50 +0000 en hourly 1 http://wordpress.org/?v=3.0.1 Gagueira e Música (3) http://www.gagueiraonline.com.br/blog/2013/08/gagueira-e-musica-3-our-time/ http://www.gagueiraonline.com.br/blog/2013/08/gagueira-e-musica-3-our-time/#comments Sat, 03 Aug 2013 18:28:20 +0000 Ignês http://www.gagueiraonline.com.br/blog/?p=4625 Gagueira e Música (3) - O amor incondicional do grupo Our Time

Conheça o amor incondicional do grupo Our Time.

Na terceira postagem da série “Histórias sobre Gagueira e Música”, vamos falar sobre uma incrível companhia de música e teatro chamada “Our Time”. A Our Time é totalmente diferente de qualquer companhia que você já viu, porque ela foi construída com base em um único e inegociável critério: apenas pessoas que gaguejam podem ingressar nela (v. video).

Reportagem sobre o grupo Our Time exibida em 2008 no canal WNBC

Reportagem sobre o grupo Our Time exibida em 2008 no canal WNBC (clique p/ assistir).

Cada integrante do grupo conhece em profundidade, por experiência própria, a dor sentida pelo seu interlocutor. Todos ali já foram alvo de risos, zombaria, agressões e humilhações – porém, uma vez dentro da Our Time, eles finalmente puderam encontrar um ambiente favorável para se sentirem bem consigo mesmos, amparados pelo amor incondicional dos outros membros da companhia.

Todos ali ouvem a história de seu semelhante com respeito, empatia e compaixão. Eles adquirem confiança e desenvolvem habilidades sociais que jamais haviam sido exercitadas em plenitude. Eles fazem novas amizades e constroem parcerias para a vida toda. Eles aprendem a transformar a linguagem de seus corações em músicas e peças de teatro sensíveis e cativantes, compondo canções, escrevendo roteiros e atuando em histórias que eles mesmos criam e que emocionam e levam às lágrimas as mais diversas plateias.

E tenho certeza de que você também não vai conseguir conter as lágrimas ao ver e ouvir no vídeo abaixo estes jovens cantando: “Há um lugar mágico chamado Our Time | Lá ninguém zomba de você, você será amado”. Assista com legendas em português a esta imperdível e emocionante apresentação musical do grupo:

Histórias sobre gagueira e música

Grupo Our Time, Nova Iorque, EUA

Clique aqui para abrir a transcrição do vídeo

[Anderson Cooper, apresentador] Estamos de volta. Philip, 16 anos, nos contou como a gagueira afetou sua vida, mas também o conectou a outros jovens incríveis. Aqui estão seus amigos da companhia “Our Time”, que é um grupo dedicado a ajudar crianças que gaguejam e que está se apresentando pela primeira vez em rede nacional. Julianna tem 13 anos, ela é vocalista do grupo e amiga de Philip. Vocês não gaguejam quando cantam? Isso é bem interessante.

[Julianna Padilla, vocalista do grupo] Eu sempre me pergunto por que as pessoas não gaguejam quando cantam. Mas eu realmente gosto de cantar e fico feliz de a gagueira não afetar o canto.

[Anderson Cooper, apresentador] Quem é seu cantor favorito?

[Julianna Padilla, vocalista do grupo] Eu não tenho um favorito, mas gosto de música pop.

[Anderson Cooper, apresentador] Vivian, você pode explicar por que eles não gaguejam quando cantam?

[Vivian, fonoaudióloga consultora] De fato é muito raro gaguejar durante o canto. Há muitas razões para isso, uma é a lentificação da fala, outra é que as palavras estão encadeadas e memorizadas. Além disso, o canto é provavelmente processado em uma área do cérebro não utilizada na fala espontânea. Assim eles podem contornar algumas conexões que são importantes para a fala espontânea.

[Anderson Cooper, apresentador] Muito bem. Eles agora vão cantar uma música autoral chamada “Lugar Mágico”. É com vocês.

[Grupo Our Time] Há um lugar mágico chamado “Our Time” | Assim que entrar lá, você será amado | Há liberdade neste lugar chamado “Our Time” | Ninguém zomba de você, você será amado | Deixem que haja amor no mundo | Para que isso possa alcançar a todos | Deixem que haja liberdade no mundo | Se houver amor, todos serão felizes | Há um lugar mágico chamado “Our Time” | Ninguém zomba de você, você será amado | Você será amado

Tradução e legendas: Hugo Silva.

Sobre a companhia Our Time

A Our Time é uma companhia de música e teatro de Nova Iorque (EUA) que pode ser considerada um refúgio artístico para jovens que gaguejam. Seu nome é uma referência ao principal lema dentro da companhia: oferecer aos jovens que gaguejam um presente simples, porém valioso — o presente do tempo (tanto quanto for preciso para que eles se expressem). A Our Time foi fundada em 2001 por Taro Alexander (ator, diretor, professor e pessoa que gagueja) com o propósito de ser um lugar livre do julgamento e da ridicularização a que geralmente as pessoas que gaguejam são submetidas. Ali elas podem se reunir e se expressar criativamente, construir sua confiança e desenvolver suas habilidades de comunicação. A companhia começou trabalhando somente com adolescentes em 2001. Em 2004, ela expandiu seu público e começou a trabalhar com crianças entre 8 e 12 anos. Em 2009, além de peças e musicais, a Our Time começou a fazer pequenos filmes e videoclipes e também lançou um CD de músicas compostas por membros da companhia. Na gravação do CD participaram nomes como Carly Simon, John Forté e Mandy Patinkin. Atualmente a companhia tem no currículo mais de 50 peças e musicais. Nesta página é possível conhecer algumas realizações da companhia. Garanto que você vai se impressionar com tudo o que eles já fizeram. Você pode saber mais sobre a Our Time visitando o site da companhia (ourtimestutter.org) ou entrando em contato direto com eles através da página do grupo no Facebook.

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Gagueira e Música (2) http://www.gagueiraonline.com.br/blog/2013/06/gagueira-e-musica-2/ http://www.gagueiraonline.com.br/blog/2013/06/gagueira-e-musica-2/#comments Thu, 06 Jun 2013 16:30:10 +0000 Ignês http://www.gagueiraonline.com.br/blog/?p=4544 Lil JaXe, o adolescente que usa o rap como forma de expressar aquilo que a gagueira o impede de dizer

Foi em 2009 que a Sra. Robyn Zeldin ouviu do filho de apenas 10 anos:
“Mãe, quero ser rapper”. Dita com convicção, esta é uma escolha que pode fazer alguns pais se sentirem muito desconfortáveis, mas o desejo do filho soou como música para os ouvidos de Robyn.

Isso porque seu filho, Jake, tem uma gagueira cuja gravidade pode transformar a enunciação de uma simples frase em um grande desafio. Porém, uma transformadora e inesperada revelação fez Jake enxergar um futuro como rapper, a despeito de sua tão acentuada dificuldade de fala. Ela ocorreu durante uma brincadeira em uma colônia de férias, quando ele percebeu que a gagueira que amordaçava sua voz desaparecia completamente quando ele cantava rap.

Reportagem com Jake Zeldin no canal Fuse News TV

Por causa da gagueira, Jake Zeldin foi humilhado na escola. Hoje, usa o bullying como motivação para compor. “Os babacas e suas bravatas podem quebrar meus ossos, mas jamais vão conseguir me machucar.” (clique p/ ver com legendas).

Nos anos seguintes, Jake aprimorou sua habilidade inata para o rap e construiu uma impressionante rede de contatos no mundo do hip-hop. Mas além da promissora carreira, o que mais entusiasmou a mãe de Jake foi a drástica mudança que ela viu ocorrer em seu comportamento e em sua autoestima.

“É inacreditável. É maravilhoso. Essa mudança é a principal razão pela qual estamos encorajando-o a seguir nisso”, disse ela em uma entrevista recente ao lado do filho. “Estamos vendo-o crescer muito. É formidável para sua autoestima. Hoje, ele diz que finalmente encontrou sua voz.”

Jake Zeldin adotou o nome artístico de Lil JaXe (o X representa seu talento insuspeito, seu “X-Factor”). É fácil entender por que a possibilidade de transformação oferecida pela música é tão atraente para Jake. Ele tem uma personalidade extraordinariamente entusiasmada e otimista para um adolescente, sobretudo para um adolescente que enfrenta uma deficiência de fala tão difícil, mas essa personalidade não havia ainda encontrado a oportunidade de vir à tona por causa da gagueira. Quando descobriu uma válvula de escape, ele finalmente pôde se reencontrar consigo mesmo.

Sua vida foi marcada desde cedo pelos desafios impostos pela gagueira. A condição há muito tempo fez dele um alvo dos valentões de sua escola em Toronto. “Fui caçoado e agredido pelas crianças na minha escola, até mesmo os professores zombaram de mim”, diz ele, sem deixar o sorriso desaparecer de seu rosto. “Mas ter inimigos é parte da vida, certo? Você sabe que está fazendo a coisa certa quando tem inimigos. Se você não tem inimigos, alguma coisa está errada.”

De fato, além de ter descoberto como o rap pode desatar os nós de sua garganta, Jake parece ter também encontrado força e autenticidade no estilo desafiador e confiante do hip-hop. No boné que ele usa pode-se ler a mensagem “Eu amo quem me odeia” na frente e “Motivação” na parte de baixo da aba.

Jake adora fazer rap de improviso, e aborda com frequência em suas composições a temática da resiliência que ele precisou ter diante da dificuldade e da dúvida. Quando ele alegremente concorda em fazer alguns versos de demonstração – e é realmente incrível ver alguém com tanta dificuldade em falar se transformar de forma instantânea em um construtor fluente e frenético de rimas improvisadas – ele intercala versos divertidos e banais com versos que fazem referência à sua luta, tais como:

“Fui humilhado toda a vida, até mesmo por professores
Não é fácil ter vida plena, sendo alvo de odiadores.”

Sua mãe diz que sempre que é alvo de uma agressão, Jake se vinga de seus algozes compondo. Ela se emociona ao falar isso, mas diz que está feliz por ele ter encontrado uma maneira de se levantar por si mesmo – e é melhor do que entrar em brigas.

Como se vê, Jake é um adolescente extremamente inteligente e articulado, que sempre soube exatamente o que queria dizer. E agora ele finalmente encontrou um jeito eficiente de fazer isso. “Tive sorte de a minha deficiência ter me levado a descobrir meu talento. Ela poderia ter me parado, mas, ao invés disso, me tornou quem eu sou hoje. Por isso, quero contar minha história para quem quiser ouvir. Quero transmitir ao máximo de pessoas a mensagem de que não podemos deixar que uma deficiência nos impeça de sonhar e de viver.”

Como recompensa, no final de 2012, Jake foi convidado a participar do quadro “Fator Humano” da CNN, uma coluna mensal do canal que traça um breve perfil de pessoas que sobreviveram à adversidade e conseguiram ir muito além das expectativas. Diante de um grande obstáculo na vida, elas souberam preservar a força interior e encontraram uma resiliência que muitas não sabiam que possuíam. Jake Zeldin é um exemplo lapidar disso. Ele sofreu durante quase uma década bullying pesado dos colegas de classe e até mesmo de professores, tudo porque tem gagueira grave. Então, ele descobriu o rap:

Histórias sobre gagueira e música

Jake Zeldin, 14 anos, natural de Toronto, Canadá

Clique aqui para abrir a transcrição do vídeo

[Carl Azuz, apresentador] Gagueira. É muito comum em crianças que estão aprendendo a falar. Mas para algumas pessoas é uma condição crônica, que não desaparece com a idade. Embora em alguns casos, ela de fato desapareça enquanto a pessoa canta. Existem algumas explicações para isso. Uma é que usamos uma voz modificada para cantar, que é mais fácil de emitir. Outra razão tem a ver com que lado do cérebro usamos para a música. Isso é o que Dr. Sanjay Gupta explica para você nesta reportagem sobre gagueira. Dr. Gupta, explique melhor para nós.

[Dr. Sanjay Gupta, médico] Carl, quero lhe apresentar um jovem de Toronto que encontrou uma forma de fazer sua gagueira desaparecer. Quando Jack Zeldin canta rap, ele está usando mais o lado direito do cérebro, em vez do esquerdo, que é mais usado para linguagem. Você não vai acreditar nisso, mas assista a Lil JaXe.

[Lil JaXe] # Ei, você está no trono de Jay-Z ou Kanye / # Você pode fazer parte do meu círculo…

[Dr. Sanjay Gupta] Ao ouvir Jake Zeldin improvisar no rap você não imagina que ele tem um distúrbio de fala tão debilitante que pode fazer um adolescente se isolar do mundo.

[Robyn Zeldin, mãe] Ele começou a falar com 2 anos e muito bem. Com palavras isoladas ele não teve problema, mas quando começou a formar frases com duas ou três palavras, foi aí que o distúrbio apareceu.

[Zvi Zeldin, pai] Quem ama Jake sabe que ele precisa de tempo para falar e deixa que ele conclua o que está dizendo.

[Dr. Sanjay Gupta] Mas muitos outros o atormentaram, ele foi humilhado. E não só por colegas de classe, também por professores.

[Lil JaXe] O que houve com um professor foi que… eu estava fazendo uma voz diferente na aula de teatro, algo como “Hi”, aí o professor disse: “Não sei o que é mais irritante, se essa voz ou sua gagueira.”

[Dr. Sanjay Gupta] Os pais de Jake, Robyn e Zvi, investiram muito tempo e dinheiro em tratamentos para o filho, mas nada funcionou. Então, quando tinha 10 anos,uma profunda descoberta aconteceu numa colônia de férias.

[Lil JaXe] Entrei numa brincadeira de batalha de rap e… foi quando vi que eu era bom nisso.

[Dr. Sanjay Gupta] Agora, Jake se apresenta como “Lil JaXe”, e com desenvoltura. O ritmo e a cadência do rap tornam mais fácil para ele dizer as palavras sem gaguejar.

[Lil JaXe] Vamos lá, pessoal, batam palmas!

[Dr. Sanjay Gupta] Em dezembro de 2011, Jake teve sua grande chance.

[Lil JaXe] Fui nos bastidores de um show e improvisei pro Drake.

[Dr. Sanjay Gupta] O irmão de Jake, Cole, registrou o encontro e enviou o vídeo para o YouTube. Até agora, 200.000 visualizações e subindo.

[Cole Zeldin, irmão] É incrível, ir aonde ele vai, conhecer pessoas legais.

[Lil JaXe] # Porque não há como fazer… / # isso desaparecer…

[Dr. Sanjay Gupta] E para todos aqueles que o atormentavam, os rancorosos, eles agora servem de motivação para Jake quando se apresenta para plateias de 20.000 pessoas.

[Lil JaXe] Sou igual a você, só um garoto com um sonho. Meu sonho é me divertir e fazer música, e isso está se tornando realidade agora.

[Dr. Sanjay Gupta] De Jake a Lil JaXe, o gago que virou rapper e exemplo de superação.

[Lil JaXe] # Aqui é JaXe na CNN, deixe eu me apresentar

[Dr. Sanjay Gupta] Dr. Sanjay Gupta, para a CNN.

Sobre Jake Zeldin

Jake Zeldin nasceu em 9 de março de 1999. Ele é natural de Toronto, Canadá. Apesar de ter uma gagueira bastante grave, que torna difícil até mesmo frases simples, ele deixa seus interlocutores atônitos ao demonstrar como a gagueira subitamente desaparece quando canta rap (entenda o porquê). Adotando o nome artístico de Lil Jaxe , ele começou a se dedicar profissionalmente ao rap a partir de 2011, ganhando rapidamente notoriedade e atraindo a atenção de nomes consagrados do meio, como o cantor Drake e o rapper Sky Blu do grupo LMFAO. Ao ouvir Lil Jaxe cantar rap de improviso, você jamais imagina que ele tem uma deficiência de fala ou que tem apenas 14 anos. Seu talento e criatividade situam-se muito além de sua idade. Sua mãe, Robyn Zeldin, conta que, depois de diversos tratamentos frustrados, o rap foi o único remédio que deu a ele a possibilidade de sair de sua concha e compartilhar seu talento com os outros. Mesmo tendo sofrido bullying desde seu primeiro dia de aula, tanto de colegas de classe quanto de professores, a paixão artística, a motivação e o talento inato de Jake transformaram a zombaria em respeito e deram a ele não só a admiração de seus pares, mas também a atenção de grandes executivos da indústria da música. Você pode conhecer mais sobre Jake Zeldin em seu site pessoal (liljaxe.com) ou entrar em contato direto com ele através do twitter (@LilJaXe) ou do Facebook (facebook.com/LilJaXe).

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Gagueira e Música (1) http://www.gagueiraonline.com.br/blog/2013/04/gagueira-e-musica-1/ http://www.gagueiraonline.com.br/blog/2013/04/gagueira-e-musica-1/#comments Sat, 27 Apr 2013 21:55:57 +0000 Ignês http://www.gagueiraonline.com.br/blog/?p=4467 Histórias sobre gagueira e música — Harrison Craig

Com esta postagem, estamos iniciando uma série que reunirá cinco histórias comoventes e inspiradoras relacionadas ao efeito quase mágico que a música tem sobre a gagueira. A primeira história vem da Austrália e seu protagonista é Harrison Craig, um jovem de 18 anos dono de uma voz sublime e um sorriso encantador.

Harrison vive com a mãe, Janine, e o irmão mais novo, Connor, em Melbourne, Austrália. Ele tem gagueira desde a primeira infância e, em várias ocasiões, foi alvo de bullying, sofrendo repetidas agressões e humilhações na escola. No primário, quando estava na segunda série, um dos provocadores o agrediu com tanta violência que quebrou seu dente. Esse tipo de agressão continuou durante todos os anos do ensino fundamental, até que ele foi para o ensino médio. Lá encontrou alguns amigos que puderam enxergá-lo além da gagueira, e o bullying cessou.

Quando você ouve Harrison cantar, sabe de imediato que ele é especial. Sua voz é tão cristalina que você pode esquecer todos os seus problemas e ouvi-lo para sempre. Ele é um jovem que superou a adversidade e sonha em trabalhar, sem olhar para trás. Todos os técnicos do The Voice australiano (Seal, Ricky Martin, Delta Goodrem e Joel Madden) reverenciaram seu talento. Todos o queriam em suas equipes.

Veja abaixo o vídeo legendado da comovente audição de Harrison. Aprecie essa grande voz e lembre-se: se você tem um sonho, agarre-o com força e lute por ele!

Histórias sobre gagueira e música

Harrison Craig, 18 anos, natural de Melbourne, Austrália

Clique aqui para abrir a transcrição do vídeo

[Harrison] Me chamo Harrison Craig, tenho 18 anos e sou de Melbourne, Austrália. Ter gagueira na infância e adolescência foi muito desafiador, principalmente na escola primária. Fui muito perseguido. Atualmente faço tratamento fonoaudiológico algumas vezes ao mês, mas não é uma cura. Comecei a cantar aos nove anos, quando entrei para o coral “Victorian Voice”. Depois de um tempo, decidi que não queria mais fazer parte de um grupo. Eu queria me dedicar a uma carreira solo. Desde então, tenho seguido o que manda o coração, eu acho. Trouxe minha mãe e meu irmão, eles sempre me apoiaram, é ótimo tê-los aqui comigo hoje.

[Mãe] Ele tem trabalhado muito nisso. Ele é apaixonado por isso, ele ama música e, só por ter chegado aqui, já me deixa muito orgulhosa.

[Irmão] Só vá lá e cante muito bem, eu te amo muito.

[Harrison] Obrigado, cara. Obrigado, irmão, você é o melhor. É algo que venho perseguindo há muito tempo.

[Diretor de palco] Harrison Craig, para o palco, por favor.

[Harrison] Sonhei com um momento assim a vida inteira. É uma grande oportunidade participar do The Voice.

[Mãe] Aqui estamos. Seja fantástico.

[Harrison] Obrigado, mãe.

[Mãe] Amo você, aproveite.

[Harrison] Até daqui a pouco. O que sinto que tenho que fazer é despejar meu coração e minha alma na canção, fazer os jurados ouvirem o que estou sentindo. Espero que minha voz não falhe esta noite.

[Irmão] Vai, Harrison, vamos lá.

[Mãe] Vai, Harrison.

[Harrison cantando Broken Vow, de Josh Groban] Diga-me o nome dele, quero saber. Como ele é e aonde você vai. Preciso ver o rosto dele, preciso entender por que você e eu terminamos. Vou deixar você ir, vou deixar você voar. Agora que sei, fico me perguntando por que deixei você ir logo agora que encontrei uma forma de manter mais do que uma promessa quebrada. Eu desistiria da minha alma para abraçar você mais uma vez e nunca deixar esta promessa terminar. Vou deixar você ir, logo agora que encontrei uma forma de manter mais do que uma promessa quebrada.

[Harrison] Muito obrigado.

[Joel Madden] Olha só, olha só.

[Seal] Não pude me conter agora. É por causa de vozes como a sua que caras como eu querem estar aqui.

[Harrison] Obrigado, Seal.

[Seal] É um belíssimo instrumento que você tem aí. Maravilhoso. Qual o seu nome?

[Harrison] Harrison Craig. Perdão.

[Seal] Seu nome é qual, desculpe?

[Harrison] Harrison Craig.

[Seal] Harrison, isso é um dom, irmão. Algo me diz que você tem uma história bem interessante. Porque quando você canta, é tão natural, você se sente tão confortável.

[Harrison] Desde quando comecei a falar, tive gagueira. Então, é maravilhoso poder subir aqui e poder cantar de forma tão apaixonada. É lindo, amo muito tudo isso.

[Seal] Você conhece meus métodos, certo? Você sabe o quanto posso ser intenso. O motivo pelo qual sou intenso é porque intensidade gera grandeza. Você é grande, e será meu trabalho e meu privilégio colocar para fora a sua grandeza. Não me importo se você gagueja, não me importo. Se continuar cantando assim, vou lutar muito para lhe dar o que você quer e deixá-lo mais perto do seu objetivo.

[Joel Madden] Obrigado, Seal. Minha vez. Talvez você gagueje fora do palco, mas você definitivamente não gagueja no palco. Você domina o palco, cara. Sinto que já sabe quem você é, sabe o que fazer e onde quer chegar. Tivemos a sorte de testemunhar isso esta noite.

[Harrison] Muito obrigado.

[Delta Goodrem] Harrison, acho você realmente especial. Entendo o sentido de ser especial. Acho que sua jornada e tudo o que passou para estar aí e demonstrar essa força é muito inspirador. E quero poder realmente, sabe, ajudar seus sonhos a virarem realidade…

[Joel Madden] Eu conheço Josh Groban.

[Delta Goodrem] Conheço David Foster, produtor dos álbuns de Josh Groban. Podemos falar com ele para produzir suas músicas, OK?

[Joel Madden] Estava mentindo, não conheço Josh Groban. Encontrei ele uma vez numa festa, mas não lembro o que conversamos. Estava só brincando, não é verdade.

[Delta Goodrem] O que você quer fazer, que músicas quer cantar?

[Harrison] Meu sonho é ser um artista de alcance mundial. Esse é meu objetivo. E meu estilo musical é “popera” (ópera pop). É uma mistura de música contemporânea, jazz, pop e ópera.

[Delta Goodrem] Sabe, acho que… Oh, desculpa, Ricky, desculpa.

[Joel Madden] Este é Ricky Martin, a propósito.

[Harrison] Olá, Ricky.

[Joel Madden] Ricky Martin, ele acabou de entrar no programa.

[Seal] Pensei que estava em casa, Ricky.

[Ricky Martin] Podem falar que não ligo. Eu amo sua voz. A forma como você se comunica é linda e cativante. Ficaria honrado em tê-lo no meu time. Encontraríamos canções realmente boas para ajudar você a se libertar de qualquer amarra que tenha aí dentro. Eu faria qualquer coisa, qualquer coisa que você quisesse, para ajudá-lo a contar sua história através da música. Seria uma linda missão e eu ficaria realmente feliz de embarcar nela.

[Seal] Então, Harrison, é hora de você escolher.

[Joel Madden] É a sua escolha.

[Harrison] Bem, já que preciso escolher um,e só um… Vou ficar com… Seal.

Sobre Harrison Craig

Harrison Craig nasceu em1995 e tem gagueira desde a infância, o que transformou a sua vida em um desafio diário. Apesar da dificuldade em falar, ele é capaz de cantar sem esforço. Tal como ocorre com a grande maioria das pessoas que gaguejam, as rupturas em sua fluência desaparecem enquanto está cantando. Isso se deve a diferenças na forma como o cérebro faz a integração entre som e movimento quando está processando modalidades espontâneas e não-espontâneas de fala, como o canto. Por conta da liberdade que a música lhe proporciona, Harrison canta desde que ele tinha nove anos de idade, o que contribuiu para mantê-lo sempre otimista e positivo. Ele descreve seu estilo musical como “pópera” – uma mistura de jazz, pop, música clássica e contemporânea. Harrison tem uma relação muito estreita com seu irmão mais novo e sua mãe, que lhe oferecem um suporte fundamental. Suas apresentações são principalmente em eventos para empresas, onde interpreta um repertório de músicas de seus artistas favoritos: Tony Bennett, Andrea Bocelli, Michael Bublé e Josh Groban. Você pode conhecer mais sobre Harrison Craig em seu site pessoal (harrisoncraig.co) ou entrar em contato direto com ele através do twitter (@harrisoncraig7).

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Por que a gagueira cronifica? http://www.gagueiraonline.com.br/blog/2013/04/por-que-a-gagueira-cronifica/ http://www.gagueiraonline.com.br/blog/2013/04/por-que-a-gagueira-cronifica/#comments Sun, 14 Apr 2013 18:49:01 +0000 Ignês http://www.gagueiraonline.com.br/blog/?p=4771 Que parâmetros definem a remissão e a persistência da gagueira em crianças?

West Lafayette, Indiana – Duas pesquisadoras da Universidade de Purdue, Christine Weber-Fox e Anne Smith, receberam um robusto auxílio financeiro de 3 milhões de dólares do Instituto Nacional de Saúde dos EUA para entender as bases biológicas da persistência e da remissão da gagueira em crianças. O objetivo final da pesquisa é desenvolver uma ferramenta avançada de triagem clínica que permita identificar precocemente, por meio de exames da atividade cerebral e de testes padronizados, quais crianças em idade pré-escolar estão sob maior risco de persistência da gagueira e, consequentemente, precisam receber tratamento de forma rápida e imediata.

“Os recursos usados no tratamento fonoaudiológico não são necessários para toda criança que gagueja, mas é muito frequente que a mentalidade do ‘vamos esperar para ver’ traga prejuízos a crianças que poderiam se beneficiar de uma intervenção precoce”, diz Anne Smith, professora de fonoaudiologia na Universidade de Purdue.

Pesquisadoras recebem financiamento para descobrir marcadores neurofisiológicos precoces da gagueira persistente

Christine Weber-Fox, neurocientista cognitiva (à esquerda), e Anne Smith, professora de fonoaudiologia, ambas da Universidade de Purdue. Juntas elas querem entender as bases biológicas da persistência e da remissão da gagueira em crianças. (clique p/ ampliar).

“Uma bateria de testes diagnósticos padronizados para gagueira ajudaria o clínico a selecionar melhor as crianças que precisam de ajuda imediata e também abriria a possibilidade de planejar a forma de tratamento mais adequada para cada criança. A identificação ágil e precoce das crianças sob risco de cronificação da gagueira é uma questão fundamental para a efetividade do tratamento, pois o fator tempo é um aspecto crucial neste distúrbio. Quanto mais cedo a intervenção for feita, melhor, porque é mais fácil aprender novos padrões de fala em uma idade mais jovem. Isso minimizaria o impacto considerável que a gagueira tem em muitos aspectos importantes da vida, incluindo relacionamento social, desempenho escolar e acadêmico e oportunidades de emprego”, diz Anne.

'O fator tempo é um aspecto crucial na gagueira.' (Anne Smith - Professora de Fonoaudiologia na Universidade de Purdue)A subvenção de 3 milhões de dólares vai financiar um projeto de cinco anos no qual as professoras Anne Smith e Christine Weber-Fox vão acompanhar 100 crianças que gaguejam, com idades entre 4-5 anos, durante um período contínuo de cinco anos. No primeiro ano, as crianças serão submetidas a testes padronizados e exames neurofisiológicos de desenvolvimento linguístico, motor e emocional. No final do projeto, a equipe de pesquisa irá comparar os escores obtidos nesses testes em dois grupos distintos de crianças – aquelas que persistiram na gagueira e aquelas que se recuperaram. Estes resultados iniciais serão, então, a base para decidir que testes devem ser incluídos na bateria de avaliação clínica para detectar risco elevado de persistência da gagueira em crianças.

Cinco por cento das crianças em idade pré-escolar gaguejam. A gagueira se manifesta na fala da criança como hesitações frequentes, esforço excessivo para iniciar uma palavra, prolongamentos atípicos de som ou repetições involuntárias de sílabas. Cerca de 80% das crianças vão superar a gagueira. As 20% restantes terão que conviver de forma vitalícia com o distúrbio, resultando em uma prevalência de gagueira na população adulta de aproximadamente 1%. O distúrbio é universal e pode ser encontrado em todos os países e culturas do mundo.

Cérebro de pessoas que gaguejam processa palavras de um jeito diferente, mesmo quando elas não estão falando.

Pesquisa anterior de Weber-Fox e Smith já havia descoberto em 2004 que o cérebro de pessoas que gaguejam processa palavras de um jeito diferente, mesmo quando elas não estão falando. (clique p/ ver com legendas).

A pesquisa que deu origem a este projeto começou com Smith em 1988, e vem recebendo financiamento do Instituto Nacional de Surdez e Outros Distúrbios de Comunicação do NIH há mais de 25 anos. Ao longo do período, a pesquisa já recebeu mais de 13 milhões de dólares em subvenções e já rendeu alguns importantes frutos, como a descoberta de que o cérebro de pessoas que gaguejam processa as palavras de um jeito diferente mesmo quando elas não estão falando (veja vídeo ao lado).

“O programa de pesquisa na área de fonoaudiologia da Universidade de Purdue é internacionalmente conhecido, e o trabalho liderado pelas professoras Smith e Weber-Fox contribui para esse reconhecimento”, disse Mitch Daniels, reitor da universidade. “Este projeto é um grande exemplo de como a pesquisa pode levar a uma melhor compreensão de uma questão científica a ponto de se transformar em uma ferramenta real de auxílio para os pais, que poderão recorrer a ela no momento em que forem confrontados com a difícil questão de como proceder quando seu filho manifestar os primeiros sinais de gagueira persistente.”

Smith e Weber-Fox, professora de fonoaudiologia e neurocientista cognitiva, respectivamente, têm trabalhado juntas desde 1999 e já descobriram que há diferenças no funcionamento do cérebro de pessoas que gaguejam, e também que essas diferenças aparecem em pessoas que gaguejam mesmo quando estão caladas, simplesmente ouvindo ou lendo em silêncio (veja vídeo acima).

As pesquisadoras analisaram anteriormente a atividade cerebral e a coordenação motora em adultos e crianças que gaguejam, porém decidiram focar mais recentemente sua pesquisa em crianças em idade pré-escolar, a fim de identificar as diferenças entre crianças que se recuperam da gagueira e aquelas que não conseguem.

“Notamos que nas crianças em que a gagueira persiste também há atrasos no desenvolvimento dos sons da fala, na coordenação motora da fala e nas funções do cérebro para o processamento de linguagem, mas é preciso mais investigação para identificar de que modo essas variáveis podem ser usadas como fatores preditivos que permitam indicar quais crianças vão se recuperar da gagueira e quais irão cronificar”, diz Weber-Fox. No futuro, esses perfis neurofisiológicos levarão a tratamentos mais personalizados e eficazes para a gagueira.

Sobre Christine Weber-Fox, Ph.D.

Christine Weber-Fox formou-se em fonoaudiologia pela Universidade Estadual de Portland, em 1981. Em 1985, ela concluiu seu mestrado, também em fonoaudiologia, pela Universidade de Purdue. Em 1989, concluiu seu Ph.D. (doutorado) na mesma universidade. Depois de receber seu doutorado, ela conseguiu uma bolsa de pós-doutorado no Instituto Salk na área de neurociência cognitiva. Em 1999, Weber-Fox foi contratada para integrar o corpo docente da Universidade de Purdue. Sua principal área de interesse é entender de que forma o cérebro está organizado para viabilizar o complexo processamento cognitivo da linguagem. Ela utiliza potenciais evocados (ERPs) para investigar como os subsistemas neurais podem diferir em falantes com diferentes experiências línguísticas e habilidades de comunicação, tais como pessoas bilíngues, pessoas que gaguejam ou pessoas com deficiência de linguagem. E-mail e telefone para contato: weberfox@purdue.edu, (765)494-3819

Sobre Anne Smith, Ph.D.

Anne Smith graduou-se em psicologia pela Faculdade de Kalamazoo (Michigan, EUA), em 1972. Em 1974, ela concluiu seu mestrado em fonoaudiologia pela Universidade de Iowa. Em 1978, concluiu seu Ph.D. (doutorado) na mesma universidade. Sua principal área de interesse é o estudo das bases neurofisiológicas da produção de fala. Ela tem trabalhado intensamente no estudo da gagueira desde 1988, quando começou a desenvolver o projeto “Correlatos Fisiológicos da Gagueira”. Atualmente, o foco de sua investigação está em esclarecer os requisitos neurofisiológicos necessários para a manutenção da fluência da fala e as condições que levam à geração de rupturas na fala em pessoas com gagueira. Smith foi a primeira cientista a tomar a iniciativa de propor um consenso sobre as bases físicas da gagueira, na Oxford Disfluency Conference em 2008. Na ocasião, dirigindo-se a uma plateia composta principalmente por fonoaudiólogos, ela afirmou: “Precisamos parar de dizer que a causa da gagueira é desconhecida. Já sabemos muito sobre a base física que a origina. Não sabemos ainda com precisão cada detalhe que explica seu desenvolvimento, mas também não sabemos todos os detalhes sobre a doença de Parkinson, e nem por isso cientistas e médicos ficam afirmando que a causa da doença é desconhecida”. E-mail para contato: asmith@purdue.edu

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Para alguém com gagueira severa, é possível ser empreendedor e comunicativo? É possível, apesar da gagueira, ser especialista em ensinar às pessoas o poder da voz e ser reconhecido como alguém excepcionalmente apto a dar lições sobre como se relacionar melhor com o público? Lisa Barone responde a essas perguntas com um eloquente “sim”, e nos mostra, na formidável palestra abaixo, o segredo que a fez transformar obstáculo em trampolim, diferença em diferencial. Assista, é imperdível:

O que a gagueira me ensinou sobre gestão de negócios

Por Lisa Barone, especialista em SEO e marketing digital

Clique aqui para abrir a transcrição da palestra

Vou falar um pouco sobre o que a gagueira me ensinou sobre gestão de negócios. Mas primeiro vou falar um pouco sobre mim. Meu nome é Lisa Barone, sou sócia fundadora e diretora executiva da OutSpoken Media. Somos uma empresa de marketing digital, com sede aqui em Troy. Criei a companhia em 2009 com minha sócia Rhea Drysdale, que está se escondendo ali. Se vocês se lembram da situação de nossa economia em 2009, vão recordar que não era o melhor momento para abrir uma empresa. Mas aqui está como isso aconteceu…

Em 2009, me mudei de Los Angeles para Nova York. Eu me encontrava numa situação realmente difícil. Três meses depois de entrar em um novo emprego, sentia que as coisas não iam bem. Precisava fazer uma escolha: ficar no emprego e preservar meu contracheque, pondo em risco minha integridade, ou me demitir. Com a economia em baixa e pouca coisa a perder, larguei meu emprego.

'Tudo o que eu precisava para montar uma empresa e criar uma marca eu já sabia, porque eu gaguejava.' (Lisa Barone - Empresária e pessoa que gagueja)Se houver pessoas na plateia que tenham montado um negócio ou pensado em começar um, vocês sabem como… (Oh, o que eu fiz, apertei o botão errado.) Vocês sabem como me senti. É apavorante. Eu tinha 27 anos, era formada em turismo. Eu estava apavorada. Eu tinha dúvidas, tinha medos, e me fazia várias perguntas para as quais eu não tinha respostas. Mas sabia que a coisa boa dos novos desafios é que eles forçam você a usar aquilo que você sabe, colocam você em modo de sobrevivência e levam você a descobrir novos truques. E o que descobri foi que tudo o que eu precisava para montar uma empresa e criar uma marca eu já sabia, porque eu gaguejava.

Como vocês já devem saber, eu gaguejo. Mas o que vocês não devem saber é o quanto isso é raro. Só 1% da população adulta gagueja, e 80% dos adultos que gaguejam são homens. Isso significa que sou tão rara de ser vista quanto um unicórnio. Para aqueles que não sabem, a gagueira é uma deficiência no controle motor da fala. Pessoas que gaguejam têm uma atividade excessiva na parte do cérebro que controla os movimentos da fala, o que torna difícil para o cérebro processar os movimentos necessários. O resultado é isto: uma fala com rupturas.

O fato de eu ter gagueira impactou minha vida de várias formas. Não sofri muito com piadas, nem fui atormentada pelo bullying, mas cresci sendo muito mais discreta do que deveria. Quando você tem um distúrbio de fala, você não gosta de fazer perguntas, não gosta de entrar em controvérsias. É muito mais fácil aceitar o que as pessoas dizem do que ter de corrigi-las e dar explicações. E assim foi a minha vida por um longo tempo, até o dia em que descobri as mídias sociais.

Em 2006, encontrei minha voz e meu nicho quando aceitei trabalhar como escritora em uma empresa de SEO em Los Angeles. Parte do meu trabalho era escrever em blogs todo dia. Então, todo dia eu me comunicava com as pessoas de uma forma que era mais confortável para mim. Eu ensinava coisas a elas, compartilhava meus pontos de vista, fazia as pessoas rirem, contava histórias. Eu finalmente estava em contato com as pessoas de novo. E também comecei a sentir prazer no que eu estava fazendo. As pessoas viam que eu tinha habilidade de conversar com pequenos empresários e de estabelecer um elo de proximidade com eles. Eu conseguia ensinar as marcas e as agências sobre o poder da voz e elas me pagavam por isso.

'Assim como uma pequena empresa, eu tinha medo de me expor e chamar muita atenção.' (Lisa Barone - Empresária e pessoa que gagueja)Logo percebi por que eu era boa nisso. Assim como uma pequena empresa, eu tinha medo de me expor e chamar muita atenção. (Ooops, ainda não.) Eu me escondia porque tinha medo de mostrar às pessoas quem eu era. Eu estava limitando minha própria voz, porque nem mesmo achava que merecesse uma. E isso foi uma importante revelação para mim, porque me permitiu ver a gagueira como algo a meu favor e não contra mim. Entendo o poder da voz melhor do que qualquer um, porque preciso lutar por ela. Minha dificuldade com a voz me permitiu ter empatia com as dificuldades dos outros. E só preciso encontrar as pessoas uma única vez para que se lembrem de mim. Isso é algo especial, principalmente no mundo dos negócios, onde lutamos para fortalecer uma marca. Minha gagueira me torna memorável, e ao me tornar memorável, consigo me destacar.

Isto foi o que a gagueira me ensinou: A gagueira me ensinou a gerenciar um negócio porque a gagueira me ensinou a ser receptiva com o incomum e a fazer o incomum dar certo. E isso é o que todos buscamos, seja você empregador ou empregado, queremos todos ser lembrados. Mas nem sempre foi assim. Antes do advento da Internet, as empresas ganhavam dinheiro mirando nas multidões, elas não se preocupavam com as diferentes camadas da população, porque éramos todos reféns da loja mais próxima. Você só poderia comprar os produtos da loja da vizinhança, você só poderia contratar serviços de empresas em sua área. A Internet mudou isso. Agora, você pode fazer negócios com qualquer um, e você pode contactar qualquer pessoa. E isso mudou tudo.

Agora, a Internet deu às pessoas incomuns um lugar para encontrar outras pessoas incomuns. E pessoas que compartilham o mesmo traço peculiar se juntam e formam grupos. Formamos grupos no Facebook, criamos blogs, criamos podcasts. E quando esses grupos são formados, as empresas podem vender produtos adaptados. E hoje elas investem para serem incomuns, investem para serem diferentes, porque assim elas encontram não apenas novos consumidores, mas pessoas que vão apoiar a marca, que vão amar a marca, que vão falar sobre ela. Investir no incomum é a melhor maneira de se destacar, é a melhor maneira de ser lembrado e ganhar notoriedade. Subitamente, ser incomum tornou-se normal e até vantajoso.

'A gagueira me ensinou a ser receptiva com o incomum e a fazer o incomum dar certo.' (Lisa Barone - Empresária e pessoa que gagueja)Como fazer isso funcionar para você? Ok, vamos ao passo-a-passo.

1) Aceite o fato de que você é estranho. Não há problema nisso, realmente não há. Alguns vivem no mundo como se estivessem numa escola secundária, querendo ser aceitos e parecidos com os outros, mas isso causa mais prejuízo do que benefício. Abandone isso.

2) Identifique o que faz você estranho. Eu acredito que no fundo todo mundo sabe que é estranho. Sou estranha porque gaguejo, sou estranha porque coleciono meias… Todo mundo tem um lado estranho, só é preciso admitir. Se você prefere fingir que não é estranho, então tá bom. O que você faz quando ninguém está olhando? O que você tenta controlar quando conhece alguém? Todos temos algo assim. Seu lado estranho pode estar enraizado em uma experiência, pode ser um traço de caráter, um traço físico, pode ser uma obsessão estranha, uma introversão excessiva ou uma extroversão exagerada, o que quer que seja…

3) Encontre uma maneira de usar isso. Há uma diferença entre ser estranho e ser estranho de uma forma que ajuda você a se relacionar com outras pessoas. Existe um modo de ser estranho que atrai clientes, é isso que você precisa descobrir. E como você faz para que esse lado estranho favoreça seu negócio e seus clientes? Como tornar isso relevante?

Quando falei para as empresas sobre como aumentar a voz delas ou como ter uma melhor comunicação com os clientes falei da criação do super-herói blogueiro. O super-herói blogueiro é uma versão melhorada de você. Ele realça as características mais atraentes em você, e despreza as coisas que não servem aos seus clientes. Precisamos parar de dar uma conotação negativa ao que é “estranho”, porque o sucesso do seu negócio depende de sua capacidade de ser estranho e de se destacar.

Vou usar o nosso exemplo. Em 2009, quando começamos a Outspoken, estávamos entrando em um nicho muito saturado do mercado. Sabíamos que precisávamos de algo que nos ajudasse a atrair a atenção. Apesar de haver muitas coisas estranhas em relação a mim e minhas sócias, uma das coisas mais óbvias era que éramos mulheres muito jovens dando início a uma companhia de marketing digital. Isso era raro, por isso usamos. Com isso alcançamos outras mulheres empresárias, pois sabíamos que mulheres gostam de fazer negócios com outras mulheres. Demos publicidade à escassez de mulheres nesse ramo e sobre como queríamos mudar isso. E deu certo. Nossa empresa foi notícia no Wall Street Journal, foi notícia na Business Week, foi notícia no The New York Times.

Estas são as grandes marcas que no momento compartilham nossa marca com seu público – que também é estranho. Todos aqueles personagens da série Jersey Shore, não importa se você acha que são deploráveis, porque eles são, mas eles deram certo. Snooki é a melhor, ela é fora de série. Ela mal consegue ficar de pé sem cair, mas tem o livro mais vendido do NYT. O “The Situation” já ganhou mais de 5 milhões aparecendo em eventos. Jenni tem um livro e uma linha de bronzeadores. Ronnie faz propagandas de produtos. Sammy tem um perfume. Os outros dois têm uma linha de roupas. É ridículo, mas eles conquistaram espaço por serem estranhos.

E aqui está meu grand finale. Queria deixar vocês com uma citação poderosa de alguém que eu respeito. Então, aqui está o que proponho. Dolly Parton disse: “Você precisa primeiro descobrir quem você é e depois fazê-lo de propósito.” Para mim isso é o cerne da questão. Todos somos estranhos, apenas seja estranho e você vai encontrar seu público. Obrigada. (Aplausos)

'Entendo o poder da voz melhor do que qualquer pessoa, porque preciso lutar por ela' (Lisa Barone - Empresária e pessoa que gagueja)

Sobre Lisa Barone

Nascida em Smithtown, uma vila no Condado de Suffolk, na costa norte de Long Island (Nova York, EUA), Lisa Barone é uma bem sucedida empresária que atua no ramo de SEO (Search Engine Optimization) e marketing digital, oferecendo consultoria publicitária para empresas que querem aumentar sua visibilidade e fortalecer sua presença na Internet. Ela tem sido uma voz admirada na área desde 2006, quando começou a se destacar por sua habilidade única em compreender as dificuldades envolvidas na comunicação online e offline das empresas com seus clientes, por suas observações extremamente honestas sobre marketing na Internet e também por seu jeito frenético e bem-humorado de tuitar. Seu trabalho e sua expertise na área já foram destaques em sites como o The New York Times, The Wall Street Journal, BusinessWeek, Inc. Magazine, Reuters, Intuit, Forbes, PBS, FOX News, Copyblogger e muitos outros. Em 2009, ela fundou a Outspoken Media Inc., empresa de marketing digital com sede em Troy, Nova York (EUA), onde se consolidou como uma das maiores autoridades mundiais em SEO e popularizou muitas das estratégias bem sucedidas de marketing digital adotadas atualmente pelas empresas nas redes sociais. Em 2012, ela deixou a OutSpoken Media Inc. para se tornar vice-presidente de estratégia da Overit, supervisionando a divisão de estratégia, conteúdo e mídia social da empresa. Você pode ler as postagens diárias de Lisa sobre SEO e marketing digital no blog de sua empresa, ou ler sobre a importância da voz, bem como sobre o impacto que a gagueira teve em sua vida, em seu site pessoal voiceinterrupted.com.

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A campanha do DIAG 2012 http://www.gagueiraonline.com.br/blog/2012/10/campanha-do-dia-internacional-de-atencao-a-gagueira-2012/ http://www.gagueiraonline.com.br/blog/2012/10/campanha-do-dia-internacional-de-atencao-a-gagueira-2012/#comments Tue, 02 Oct 2012 19:20:41 +0000 Ignês http://www.gagueiraonline.com.br/blog/?p=3870 International Fluency Association (IFA - Associação Internacional de Fluência) e a International Stuttering Association (ISA - Associação Internacional de Gagueira)...]]> Dia Internacional de Atenção à Gagueira 2012

Anualmente, celebra-se no mês de outubro o Dia Internacional de Atenção à Gagueira (DIAG). A data foi criada 14 anos atrás, em 22 de outubro de 1998, por duas das principais entidades internacionais que oferecem apoio a pessoas com gagueira: a International Fluency Association (IFA – Associação Internacional de Fluência) e a International Stuttering Association (ISA – Associação Internacional de Gagueira).

No Brasil, os eventos relacionados à data são promovidos pelo Instituto Brasileiro de Fluência (IBF)ONG que desenvolve ações para aumentar o nível de esclarecimento da sociedade sobre gagueira e distúrbios afins, melhorando assim a prevenção, o diagnóstico e o tratamento das desordens de comunicação que afetam a fluência da fala. Clique no link abaixo para acessar o site do Instituto. , em parceria com o CEFAC, o HSPE (Hospital do Servidor Público Estadual de SP), a UFRJ e o CFFa (Conselho Federal de Fonoaudiologia). A campanha deste ano tem como foco o combate aos estereótipos e a afirmação da diversidade das pessoas que gaguejam. Esses objetivos estão resumidos nos seguintes lemas da campanha: “Ter gagueira não define quem eu sou”, “Posso falar e tenho muito a dizer” e “Gagueira não tem graça, tem tratamento”.

Conferência online mundial sobre gagueira terá duas representantes do Instituto Brasileiro de Fluência

“Posso falar e tenho muito a dizer”. Este ano, a Conferência Online Mundial Sobre Gagueira terá pela primeira vez a participação de duas brasileiras entre os pesquisadores selecionados, ambas integrantes do Instituto Brasileiro de Fluência (clique p/ acessar).

Ao longo do mês de outubro, será realizada uma conferência online mundial (v. figura ao lado), palestras em escolas, minicursos e encontros em diversas cidades brasileiras (veja a lista completa de eventos no site do IBF). O objetivo de todos esses eventos é combater o preconceito, difundir informações atualizadas sobre gagueira e reduzir o desconhecimento do público, que infelizmente ainda é muito grande.

A campanha também conta com o importante apoio da Rede Globo de Televisão, que desde 2005 divulga o filme “Gagueira não tem graça, tem tratamento”. O vídeo foi gentilmente produzido pela equipe de propaganda da emissora e tem sido veiculado em cadeia nacional e internacional, com versões em inglês e português. Veja abaixo as duas versões do vídeo da Globo, a programação de eventos e os belos cartazes da campanha deste ano.

Propaganda da Globo

Gagueira não tem graça, tem tratamento

Programação de eventos

Dia Internacional de Atenção à Gagueira 2012

Data do evento:

  • 20 de outubro de 2012 (sábado).

Local do evento:

  • Hospital do Servidor Público Estadual, Av. Ibirapuera, 981 – 1º andar, sala 102 (ver no mapa)

Programa e inscrição:

  • Clique aqui ou na logomarca do DIAG acima para acessar a programação completa do evento e fazer sua inscrição.

Dia Internacional de Atenção à Gagueira 2012

Eventos pelo país:

  • Clique aqui ou na logomarca do DIAG ao lado para acessar a lista completa de eventos pelo país.

Dia Internacional de Atenção à Gagueira 2012

Conferência Online Mundial:

  • Clique aqui ou na logomarca do DIAG ao lado para acessar a Conferência Online Mundial Sobre Gagueira.

Cartazes da campanha

Links recomendados

Site do Instituto Brasileiro de Fluência

Site do IBF

Para ter acesso a informações mais detalhadas sobre a campanha 2012 do Dia Internacional de Atenção à Gagueira no Brasil e no mundo, visite o site do Instituto Brasileiro de Fluência (www.gagueira.org.br).

Dia Internacional de Atenção à Gagueira no Facebook

DIAG no Facebook

Para interagir com outras pessoas e saber em primeira mão das últimas novidades da campanha 2012 do Dia Internacional de Atenção à Gagueira no Brasil e no mundo, visite a página do DIAG no Facebook.

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A iniciativa da voz pelo Parkinson http://www.gagueiraonline.com.br/blog/2012/08/parkinson-diagnostico-precoce-pela-fala/ http://www.gagueiraonline.com.br/blog/2012/08/parkinson-diagnostico-precoce-pela-fala/#comments Wed, 15 Aug 2012 16:57:29 +0000 Ignês http://www.gagueiraonline.com.br/blog/?p=3652 Risco de desenvolver Parkinson pode ser estimado pela fala

Pesquisadores do MIT estão utilizando alterações vocais para o desenvolvimento de um método extremamente preciso de diagnóstico precoce da doença de Parkinson. Futuramente, o risco de alguém desenvolver os sintomas mais graves do mal poderá ser estimado com bastante antecedência por meio de análise computadorizada da voz, permitindo assim que a intervenção seja realizada ainda em um estágio muito inicial da doença.

UM INCRÍVEL ALGORITMO

Não existe atualmente nenhuma cura para o mal de Parkinson, uma doença neurológica debilitante e progressiva que afeta mais de 20 milhões de pessoas no mundo. Também não existe nenhum exame simples que permita detectá-lo com antecedência. Dessa forma, a intervenção precoce é quase impossível. No entanto, em pouco tempo poderá haver uma maneira surpreendentemente fácil de diagnosticar precocemente a doença – tão fácil quanto pegar o telefone e dizer: “ahhh…”.

Palestra de Max Little na conferência TEDGlobal.

Palestra do coordenador do projeto Parkinson’s Voice Initiative na conferência TEDGlobal. (clique p/ ver com legendas).

“Há evidências de que os distúrbios de voz podem ser um dos primeiros indicadores do início da doença”, diz o matemático Max Little, cientista do MIT (Massachusetts Institute of Technology) e coordenador da pesquisa. Little é a cabeça por trás do projeto Parkinson’s Voice Initiative (veja vídeo ao lado). Ele criou um incrível algoritmo de computador que permite determinar de forma rápida se uma pessoa tem ou não mal de Parkinson apenas analisando o som de sua voz. Até o momento, o algoritmo vem cumprindo a tarefa com muita eficiência.

UM RESULTADO SURPREENDENTE

VOZ 1 (aperte play para reproduzir)

VOZ 2 (aperte play para reproduzir)

Você consegue notar a diferença? Uma das duas vozes mostradas acima possui sinais positivos para doença de Parkinson. Tente dizer qual das duas se encaixa no diagnóstico e veja aqui se você acertou.

Little trabalhou nesse algoritmo enquanto fazia seu doutorado em Oxford. Naquela ocasião, não lhe ocorreu que poderia ser usado para detectar a doença de Parkinson, até que um encontro casual com Andy Grove, um dos fundadores da Intel, lhe deu o insight. “Ele veio até mim e disse: ‘Max, temos uma grande quantidade de vozes de pacientes com Parkinson gravadas e nós realmente não sabemos o que fazer com esses dados. Talvez seu algoritmo possa ser útil para analisar isso’”, recorda-se Little.

As gravações eram de pessoas com e sem Parkinson e Little resolveu testar se seu algoritmo seria capaz de distinguir os dois grupos. No primeiro teste, o algoritmo teve uma precisão de 86 por cento. “Foi aí que pensei: ‘Ah, ok, temos alguma coisa aqui’”, diz Little. Desde então, a taxa de acerto do algoritmo foi aprimorada e hoje está em surpreendentes 99%.

COLETANDO VOZES

Parkinkon's Voice Initiative Project

Adicione sua voz. Voluntários brasileiros também podem participar do projeto PVI através do número 11 3957-0683. (para mais informações, clique no logo acima e visite o site do projeto)

Agora, seu objetivo é aumentar substancialmente essa amostra inicial, gravando mais e mais vozes de pessoas com e sem Parkinson para tornar o algoritmo ainda mais preciso. No mês passado, Little e sua equipe começaram uma campanha para que pessoas do mundo todo – inclusive do Brasil (veja figura ao lado) – contribuam com a pesquisa gravando suas vozes através de uma ligação telefônica. A pessoa que liga precisa seguir comandos eletrônicos que lhe darão as orientações corretas para completar o procedimento. O processo todo não dura mais do que 3 minutos. “Nossa previsão era que o projeto levaria cerca de seis meses para recolher 10.000 gravações”, diz Little. “Mas em pouco menos de um mês, recebemos 5.000 ligações.”

O algoritmo faz uma varredura em busca de três grupos principais de sintomas na voz: 1) tremor das cordais vocais, 2) soprosidade e fraqueza vocal, e 3) a forma como mandíbula, língua e lábios oscilam durante a fala. Através de inteligência artificial, o algoritmo é capaz de “aprender” a detectar diferenças nos padrões vocais, separando os verdadeiros sintomas da doença de outros fatores.

Little espera que o algoritmo atinja um nível de perfeição suficiente para que, ao fim da pesquisa, uma pessoa possa obter um diagnóstico e acompanhar sua doença apenas através do telefone. Ele admite que ainda há muito o que fazer, mas caso sua previsão se concretize, o diagnóstico do Parkinson se tornará tão prático e simples que o tratamento poderá ser iniciado antes mesmo que a doença comece a manifestar seus sintomas clássicos.

“É uma possibilidade muito tentadora. Se a pesquisa continuar confirmando que a voz é um dos indicadores iniciais da doença, então teremos uma forma muito barata de identificar aqueles que são suscetíveis ao mal de Parkinson na população”, afirma Little. Ele espera que a tecnologia esteja disponível para uso geral em dois anos.

PALESTRA

Veja abaixo uma breve palestra com o matemático e pesquisador do MIT Max Little, gravada em uma recente conferência TEDGlobal, na qual ele fala sobre a tecnologia de diagnóstico por voz e seu potencial. O vídeo é de junho/2012 e está com closed captions em português:

Diagnosticando o mal de Parkinson pela voz

Clique aqui para abrir a transcrição da palestra

Bem, trabalho com matemática aplicada, e um problema típico de quem trabalha com matemática aplicada é que, por atuarmos como consultores, ninguém sabe o que diabos fazemos. Então, darei a vocês hoje uma oportunidade de entender o que eu faço.

Dançar é uma das atividades mais humanas. Nos encantamos com dançarinos e sapateadores talentosos, como vocês estão vendo. O balé exige um nível extraordinário de habilidade e uma boa dose de prática, e provavelmente uma certa vocação inicial que pode muito bem ter um componente genético.

Infelizmente, doenças neurológicas como o mal de Parkinson gradualmente destroem essa extraordinária habilidade, como está acontecendo com meu amigo Jan Stripling, que foi um fabuloso dançarino em sua época. Grandes progressos foram feitos ao longo dos anos. Contudo, há 6,3 milhões de pessoas no mundo com a forma grave da doença, e elas têm de conviver com fraqueza, tremor, rigidez e outros sintomas incuráveis que acompanham a doença.

Então o que precisamos são ferramentas específicas para detectar a doença antes que seja tarde demais. Precisamos saber medir o avanço da doença objetivamente. No fim das contas, o único modo de saber se conseguimos uma cura é quando temos um método objetivo para medir a doença e nos dar essa certeza.

Mas, de forma frustrante, no mal de Parkinson e outras doenças motoras, não há marcadores biológicos. Não há um exame de sangue que se possa fazer. O melhor que temos é um teste neurológico de 20 minutos. Precisamos ir a uma clínica para fazê-lo. O exame é muito caro. Isso significa que, se você não for voluntário de uma pesquisa, o exame nunca será feito. Nunca será feito.

Mas e se o paciente pudesse fazer este exame em casa? Isso dispensaria a cansativa ida à clínica. Mas e se o próprio paciente pudesse fazer o exame? Não haveria necessidade de especialistas caros. A propósito, o exame custa cerca de 300 dólares em uma clínica. O que quero propor é um método não convencional de fazer este exame.

De certa forma, todos somos tão habilidosos quanto meu amigo Jan Stripling. Eis um vídeo das pregas vocais vibrando. É de uma pessoa saudável e ela está falando. Podemos nos considerar dançarinos de um balé vocal, porque temos de coordenar todos esses órgãos vocais quando produzimos sons. E todos possuímos genes para isso. FoxP2, por exemplo. E como no balé, exige um extraordinário treinamento. Pense no tempo que uma criança leva para aprender a falar.

A partir do som, podemos rastrear a posição das pregas vocais enquanto vibram. E da mesma forma que o Parkinson afeta pernas e braços, os órgãos da fala também são afetados. No traçado de baixo, vocês podem ver um exemplo de tremor irregular das pregas vocais. Vemos os mesmos sintomas: tremor vocal, fraqueza e rigidez. A fala vai ficando menos fluente e cansada com o tempo. Esse é um dos sintomas típicos da doença.

Esses efeitos vocais podem ser muito sutis em alguns casos, mas com qualquer microfone digital, e usando um software de precisão para análise de voz junto com máquinas de inteligência artificial, um área muito avançada atualmente, podemos quantificar exatamente o ponto em que a pessoa está numa escala contínua entre a saúde e a doença, usando apenas dados de voz.

Então, esse teste de voz, como ele se compara ao de uma clínica especializada? Ambos são não invasivos. O teste neurológico não é invasivo. Ambos usam a infraestrutura existente. Não é preciso construir novos hospitais para isso. Ambos são precisos. Ok. Porém, o teste de voz não exige um especialista. Isso significa que ele pode ser auto-administrado. É rápido, leva cerca de 30 segundos. É baratíssimo, e todos sabemos o que acontece quando algo se torna baratíssimo: torna-se aplicável em larga escala.

Assim, aqui estão algumas das metas com as quais podemos lidar agora. Podemos reduzir dificuldades logísticas dos pacientes. Não será preciso ir até a clínica para um exame de rotina. Podemos fazer monitoração constante para conseguir dados objetivos. Podemos fazer recrutamento em massa para experimentos clínicos e podemos realizar pesquisa de amplo alcance populacional, factível pela primeira vez. Teremos a oportunidade de pesquisar por marcadores precoces da doença antes que seja tarde demais.

Então, dando os primeiros passos hoje, estamos inaugurando o projeto “Iniciativa da Voz pelo Parkinson”. Com o apoio de Aculab e PatientesLikeMe, vamos gravar um grande número de vozes no mundo todo e coletar dados suficientes para atingir esses quatro objetivos. Temos telefones acessíveis a 750 milhões de pessoas no planeta. Qualquer pessoa saudável ou com Parkinson pode ligar, de forma barata, e deixar uma gravação, gastando poucos centavos. Fico muito feliz em dizer que já atingimos 6% de nosso objetivo em apenas oito horas. Obrigado.

Tom Rielly: Então Max, pegando toda essa amostra de… vamos supor, 10.000 pessoas, você será capaz de dizer quem é saudável e quem não é? O que você extrairá dessa amostra?

Max Little: Sim. O que vai acontecer é que, durante a chamada você indicará se tem ou não a doença. Algumas pessoas podem não fazer isso, podem não completar. Mas vamos coletar uma amostra muito grande de dados, nas mais diversas circunstâncias. Fazer isso nas mais diversas circunstâncias realmente importa, porque assim poderemos eliminar fatores contraditórios e procurar os verdadeiros marcadores da doença.

Tom Rielly: Você acredita que tenha uma precisão de 86% agora?

Max Little: Muito mais que isso. Na verdade, meu aluno Thanasis, ele merece ser citado, pois está fazendo um trabalho fantástico, ele provou que o teste funciona também pela rede de celulares, o que valida ainda mais este projeto, e estamos conseguindo 99% de precisão.

Tom Rielly: 99%, isso é um grande avanço. Isto quer dizer que as pessoas poderão… As pessoas poderão ligar de seus celulares e fazer o teste, e as pessoas com mal de Parkinson poderão telefonar, gravar suas vozes e seus médicos poderão avaliar seu progresso e ver em que estágio da doença estão.

Max Little: Exatamente.

Tom Rielly: Obrigado. Max Little, pessoal. (Aplausos)

Sobre o pesquisador

Nascido em Edimburgo, capital da Escócia, Max Little é um proficiente matemático com formação em matemática aplicada, estatística, processamento de sinais e engenharia computacional. Ele doutorou-se na Universidade de Oxford e atualmente faz pós-doutorado no MIT, onde é titular de uma das bolsas de pesquisa mais cobiçadas do meio acadêmico, a Wellcome Trust- MIT Postdoctoral Fellowships. Ele já fez contribuições a uma série de áreas da ciência e da engenharia, incluindo biomedicina, meteorologia, hidrogeomorfologia, ciência da fala e processamento de sinais não-lineares. O tema unificador de sua pesquisa é a análise quantitativa multidisciplinar de sistemas complexos. Como um matemático aplicado, ele procura por conexões entre diferentes assuntos. Seu objetivo é ver como as coisas estão relacionadas, não como elas são diferentes. Dessa forma, sua pesquisa frequentemente rompe as fronteiras entre as disciplinas, encontrando muitas vezes elos e semelhanças insuspeitos entre elas, como no caso do uso da voz como ferramenta para diagnóstico precoce do mal de Parkinson. Para mais informações sobre o cientista, visite sua página pessoal: www.maxlittle.net

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Curso de aprimoramento no Rio http://www.gagueiraonline.com.br/blog/2012/06/curso-de-aprimoramento-no-rio/ http://www.gagueiraonline.com.br/blog/2012/06/curso-de-aprimoramento-no-rio/#comments Sat, 30 Jun 2012 15:22:51 +0000 Ignês http://www.gagueiraonline.com.br/blog/?p=3548 Curso de aprimoramento em fonoaudiologia clínica no Rio de Janeiro

Antes do workshop sobre gagueira em Belo Horizonte no mês de agosto, haverá um curso de aprimoramento em fonoaudiologia clínica no Rio de Janeiro no mês de julho. O evento está agendado para o dia 6/7 (sexta), na sucursal do CEFAC na cidade maravilhosa, em parceria com a Fonotrade. O objetivo do evento será capacitar fonoaudiólogos para que realizem diagnóstico diferencial dos distúrbios da fluência, reconheçam e diferenciem disfluências comuns e atípicas, compreendam e apliquem o protoloco de classificação de risco, ente outros temas interessantes. O quadro abaixo traz todas as informações relacionadas ao evento. Inscreva-se já!

Curso de aprimoramento fonoaudiológico no Rio de Janeiro

Conteúdo programático do curso:

  • Contribuições da Neurociência para a compreensão da fluência e seus distúrbios;

  • Descobertas da Neurociência sobre as bases neurais da gagueira do desenvolvimento;

  • Noções fundamentais para a realização do
    diagnóstico diferencial dos distúrbios da fluência;

  • Noções fundamentais para a realização da avaliação da gagueira do desenvolvimento;

  • Noções fundamentais para o planejamento terapêutico da gagueira do desenvolvimento;

  • Técnicas fonoaudiológicas para a reorganização da programação motora da fala;

  • Técnicas e estratégias fonoterapêuticas para o tratamento da gagueira do desenvolvimento.

  • A tecnologia como recurso auxiliar no tratamento da gagueira;

  • A terapia medicamentosa e sua aplicabilidade na gagueira.

Curso de aprimoramento fonoaudiológico no Rio de Janeiro

Objetivo do curso de aprimoramento:

  • Instrumentalizar fonoaudiólogos para que realizem diagnóstico diferencial dos distúrbios da fluência, reconheçam e diferenciem disfluências comuns e atípicas, compreendam e apliquem o protoloco de classificação de risco – tornando-os assim aptos para avaliar, planejar e realizar com sucesso a terapia fonoaudiológica para o tratamento da gagueira do desenvolvimento.

Curso de aprimoramento fonoaudiológico no Rio de Janeiro

Metodologia do curso:

  • Embasamentos científicos e teóricos
    para o raciocínio clínico em fonoaudiologia;

  • Observação e análise de casos clínicos apresentados em vídeo;

  • Análise, discussão e sugestões terapêuticas
    de casos apresentados pelo professor e por alunos.

Ignês Maia Ribeiro

Ignês Maia Ribeiro (CRFa 4231/SP)

  • Fonoaudióloga pela PUC-SP (1980);

  • Mestre em Distúrbios da Comunicação
    pela PUC/SP (1997);
  • Especialista em Linguagem pelo Conselho Federal de Fonoaudiologia (1998);
  • Representante da Microssom no atendimento do Speech Easy para pessoas que gaguejam desde 2006;
  • Professora do CEFAC (Centro de Especialização em Fonoaudiologia Clinica) desde 1996;
  • Autora de vários capítulos de livros da área de Fonoaudiologia;
  • Organizadora do livro Conhecimentos Essenciais para Atender Bem a Pessoa com Gagueira (São José dos Campos: Pulso, 2003);
  • Sócia fundadora do Instituto Brasileiro de FluênciaOrganização da sociedade civil que desenvolve ações para aumentar o nível de esclarecimento da sociedade sobre gagueira e distúrbios afins, melhorando assim a prevenção, o diagnóstico e o tratamento das desordens de comunicação que afetam a fluência da fala. e membro da diretoria executiva do Instituto.

Mapa - Curso de aprimoramento em fonoaudiologia clínica

Data do evento:

  • 6 de julho de 2012 (sexta).

Local do evento:

  • Cefac/Fonotrade (ver no mapa),
    Av. Nossa Senhora de Copacabana, 1133,
    salas 214/215, Copacabana, Rio de Janeiro (RJ)
    Tel/Fax: (21) 2247-6018 – Tel: (21) 2287-0696.
    Email: cefacrio@terra.com.br

Curso de aprimoramento fonoaudiológico no Rio de Janeiro

Valores para estudantes e profissionais:

  • Profissionais: R$ 280,00;

  • Alunos e ex- alunos CEFAC: R$ 260,00.

Curso de aprimoramento fonoaudiológico no Rio de Janeiro

Para se inscrever no curso:

  • Inscreva-se através do site www.fonotrade.com.br:

Faça sua inscrição no curso de atualização em gagueira

Atendimento on-line:

  • Telefones: (21) 2247-6018 / (21) 2287-0696

  • Email: cefacrio@terra.com.br

Curso de aprimoramento fonoaudiológico no Rio de Janeiro

Para mais informações:

  • CEFAC/FONOTRADE
    Av. Nossa Senhora de Copacabana, 1133,
    salas 214/215, Rio de Janeiro (RJ)
    Fone: (021) 2247-6018 / 2287-0696
    Site: www.fonotrade.com.br
    Email: cefacrio@terra.com.br

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Workshop sobre gagueira em BH http://www.gagueiraonline.com.br/blog/2012/06/workshop-sobre-gagueira-em-bh/ http://www.gagueiraonline.com.br/blog/2012/06/workshop-sobre-gagueira-em-bh/#comments Fri, 29 Jun 2012 22:40:31 +0000 Ignês http://www.gagueiraonline.com.br/blog/?p=3343 Dica de curso para fonos e estudantes do último ano de fonoaudiologia: no dia 18/8 (sábado), será realizado em Belo Horizonte um imperdível workshop de atualização em gagueira. O objetivo do evento será dotar fonoaudiólogos dos conhecimentos necessários para: 1) realizar diagnóstico diferencial dos distúrbios de fluência; 2) avaliar e planejar com maior eficiência a terapia fonoaudiológica no tratamento da gagueira. Acesse no quadro abaixo as informações detalhadas do evento:

Curso de atualização da prática fonoaudiológica em gagueira

Conteúdo programático do curso:

  • Fluência x Disfluência x Gagueira;

  • Contribuições recentes da Neurociência
    para a compreensão da gagueira;

  • Genética e Gagueira;

  • Incidência / Prevalência / manifestações clínicas;

  • Diagnóstico diferencial dos distúrbios da fluência: taquilalia / taquifemia / gagueiras;

  • Processo de avaliação das alterações da fluência;

  • Noções fundamentais para o planejamento fonoterapêutico;

  • Técnicas para a reorganização da programação motora da fala;

  • Diferentes técnicas e estratégias terapêuticas para o tratamento fonoaudiológico da gagueira do desenvolvimento.

Curso de atualização da prática fonoaudiológica em gagueira

Público-alvo:

  • Fonoaudiólogos e estudantes do último
    ano de fonoaudiologia.

Objetivo a ser alcançado:

  • Instrumentalizar fonoaudiólogos para que realizem diagnóstico diferencial dos distúrbios de fluência da fala e tenham embasamento científico para avaliar e planejar com maior eficiência a terapia fonoaudiológica no tratamento da gagueira.

Mirela Pollini Caputo

Mirela Pollini Caputo (CRFa 12702/SP)

  • Fonoaudióloga pela USP/SP (1999);

  • Especializada pelo Sydney Cochlear
    Implant Center
    (Austrália, 2001);
  • Especializada em distúrbios da fluência,
    com experiência em adaptação de aparelho de retroalimentação auditiva para gagueira
    (tecnologia SpeechEasy) desde 2007;
  • Especializanda em Motricidade Orofacial, pelo CEFAC;
  • Membro da diretoria executiva do Instituto Brasileiro de Fluência (gagueira.org.br).
Mapa - Curso de atualização em gagueira

Data do evento:

  • 18 de agosto de 2012 (sábado),
    das 9h às 18h.

Local do evento:

Curso de atualização da prática fonoaudiológica em gagueira

Formas de pagamento:

  • Depósito em conta à vista;

  • Através do cartão (em até 9x).

Valores para estudantes e profissionais:

  • Estudante (à vista – depósito em conta): R$ 195,00;

  • Estudante (cartão em até 9x): R$ 230,00;

  • Profissional (à vista – depósito em conta): R$ 215,00;

  • Profissional (cartão em até 9x): R$ 250,00.

Curso de atualização da prática fonoaudiológica em gagueira

Para se inscrever no curso:

  • Inscreva-se através do site comunicarfonoaudiologia.com.br. Preencha diretamente a ficha de inscrição clicando no botão abaixo:

Faça sua inscrição no curso de atualização em gagueira

Atendimento on-line:

  • Telefones: (32) 3216-4966 / (31) 8308-3926

  • Email: nucleocomunicar@hotmail.com

Atendimento na sede:

  • Endereço: Centro de Estudos Comunicar,
    Rua Espírito Santo, 1411 – Juiz de Fora/MG

  • Telefone: (32) 8837-5394

Curso de atualização da prática fonoaudiológica em gagueira

Para mais informações:

  • Comunicar Fonoaudiologia
    Rua Espírito Santo, 1411,
    Centro, Juiz de Fora (MG)
    Fone: (032) 8427-2004 / 3216-4966
    Site: comunicarfonoaudiologia.com.br
    Email: comunicafono@gmail.com

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Entrega do Prêmio Ben Hogan 2012 http://www.gagueiraonline.com.br/blog/2012/06/discurso-de-sophie-gustafson-premio-ben-hogan-2012/ http://www.gagueiraonline.com.br/blog/2012/06/discurso-de-sophie-gustafson-premio-ben-hogan-2012/#comments Fri, 22 Jun 2012 22:07:22 +0000 Ignês http://www.gagueiraonline.com.br/blog/?p=3127 Prêmio Ben Hogan - Discurso de Sophie Gustafson

Quando escrevemos semanas atrás sobre a bonita história de Sophie Gustafson, ficamos devendo o vídeo de seu discurso de agradecimento na cerimônia de entrega do prêmio Ben Hogan 2012, honraria dada a golfistas que precisam superar deficiências para competir e que, ao fazê-lo, inspiram outras pessoas em igual condição. Ao final deste post, você vai ver que valeu a pena esperar.

Para quem não leu a postagem anterior, Sophie Gustafson é uma golfista profissional sueca que gagueja e que, apesar de ter um excelente retrospecto de vitórias no circuito de golfe, jamais havia concedido entrevistas à TV. Muitos fãs da golfista nem sequer tinham conhecimento do motivo de sua esquiva em relação a entrevistas e passaram a admirá-la ainda mais depois do depoimento público em que ela falou abertamente sobre sua gagueira, no final do ano passado, no canal Golf Channel. Quatro meses depois, Sophie seria agraciada com o prêmio Ben Hogan.

Sophie Gustafson recebe o prêmio Ben Hogan 2012 das mãos de Ron Sirak.

Sophie Gustafson recebe seu prêmio das mãos de Ron Sirak. (clique p/ ampliar)

Na noite de entrega do prêmio, no Masters de Augusta, no momento em que Sophie se levantou para recebê-lo numa sala lotada com 350 convidados, com certeza todo mundo na plateia deve ter se perguntado como ela conseguiria fazer um discurso. A severidade da gagueira de Sophie pode transformar um mero pedido numa lanchonete em uma aventura – como então ela faria para falar diante de tanta gente? O apresentador da cerimônia desfez o mistério quando informou que seria exibido um vídeo com o discurso de agradecimento, ainda que Sophie estivesse ali presente, a apenas 3 metros do telão.

'Se eu puder ajudar uma criança a se sentir melhor com ela mesma, então terá valido a pena.' (Sophie Gustafson - Golfista profissional e pessoa que gagueja)As luzes foram desligadas e o rosto de Sophie apareceu no telão. “Quando Ron [Sirak] me disse que eu tinha vencido o prêmio, fiquei absolutamente emocionada”, começa o vídeo, “até me dar conta de que teria que fazer um discurso. Espero que todos concordem que esta é a melhor maneira de fazer isso se quiserem sair desta sala antes da 1ª tacada do torneio amanhã”, brincou Sophie.

Ao longo do discurso, ela permaneceu altiva e tranquila, assistindo calmamente à plateia que lhe assistia no telão, acompanhando a reação das pessoas sem o menor sinal de nervosismo ou constrangimento. Ela estava orgulhosa. E a plateia, por sua vez, desintegrada pela sua bravura. Na mesa perto do palco, Yani Tseng, eleita melhor jogadora do ano, não conteve a emoção e foi às lágrimas. “Eu realmente agradeço a todos por me darem esta oportunidade através do prêmio Ben Hogan “, disse Sophie na gravação. Só essa frase levou 28 segundos, o que dá uma dimensão de sua resiliência e de sua luta.

Assista abaixo à íntegra do discurso de Sophie, com legendas em português, e emocione-se:

Prêmio Ben Hogan – Discurso de Sophie Gustafson

Clique aqui para abrir a transcrição do discurso

Sophie Gustafson com o prêmio Ben Hogan: coragem reconhecida.

Sophie com o prêmio Ben Hogan: coragem reconhecida. (clique p/ ampliar)

Quero começar dizendo o quanto me sinto honrada de estar aqui hoje. Quando Ron Sirak me disse que eu tinha vencido o prêmio, fiquei absolutamente emocionada, até me dar conta de que teria que fazer um discurso. Espero que todos concordem que esta é a melhor maneira de fazer isso se quiserem sair desta sala antes da 1ª tacada do torneio amanhã.'Ter alguém que gagueja em quem as crianças possam se espelhar pode ser de grande ajuda.' (Sophie Gustafson - Golfista profissional e pessoa que gagueja)

Sempre gaguejei, isso é parte de quem eu sou. Algumas vezes as palavras fluem bem, em outras elas não fluem de jeito nenhum, mas nunca me vi como uma deficiente. Na verdade, pensando bem, talvez não fosse má ideia ter um daqueles adesivos no meu carro – pelo menos eu perderia menos tempo estacionando quando vou ao supermercado comprar queijo.

Brincadeiras à parte, minha gagueira sempre foi um grande desafio, sem dúvida. Mas como nunca conheci outra pessoa com gagueira, nunca pude comparar minha dificuldade. Tenho muita sorte de poder jogar golfe como meio de vida, uma carreira que não depende necessariamente do que falo ou deixo de falar. Conseguir ganhar dinheiro dessa forma é um luxo que pouquíssimas pessoas têm. É verdade que nem tudo são pétalas de rosa e jantares de graça, mas sem dúvida é melhor do que um trabalho normal.

A entrevista que fiz com o Golf Channel durante a Solheim Cup foi muito especial. Lembro de andar até o estúdio com Val Skinner e dizer a ela que eu estava mais nervosa ali do que estaria na tacada inicial do torneio sexta de manhã. Fico feliz em dizer que valeu muito a pena. A resposta que consegui com a entrevista foi muito gratificante. Nunca imaginei que tantas pessoas poderiam ser inspiradas pelas poucas palavras que falei. Por razões óbvias, pessoas com gagueira fogem da imprensa e especialmente da TV, mas com um pouco da mágica da edição acredito que todos possamos ser ouvidos. Fui inclusive convidada a participar de um programa de rádio outra semana. Para ser honesta, rádio, acho que não vai rolar.

Falando sério, isso tudo me fez pensar: talvez eu possa ter um impacto sobre as pessoas. Se eu posso ajudar a tornar a gagueira um assunto mais falado, então essa é uma causa que merece meu empenho. Durante a infância, tive sorte de não ter sido zombada, mas sei de muitas crianças com problemas de fala que são alvo de zombaria todos os dias. Acredito que ter alguém que gagueja em quem elas possam se espelhar pode ser de grande ajuda.

Quando os repórteres me perguntaram que conselho eu daria para as pessoas que gaguejam, eu disse que elas deveriam fazer aquilo que desejam. Mas devo alertar: telemarketing pode não ser o trabalho para você. Mas siga adiante e corra atrás de sua paixão. Não deixe que outras pessoas digam o que você pode ou não pode fazer.

Eu tive muita sorte, minha gagueira nunca me impediu de praticar o jogo que amo. Também tive sorte por este trabalho me proporcionar uma voz pública. Se eu puder usar meu golfe como plataforma para que haja mais atenção com a gagueira e com isso ajudar uma criança a se sentir melhor com ela mesma, então terá valido a pena.

Agradeço de verdade a todos vocês por terem me dado esta oportunidade através do prêmio Ben Hogan.

Sobre Sophie Gustafson

Sophie Gustafson nasceu em 27 de dezembro de 1973 na cidade de Varberg, sul da Suécia. Ela começou a jogar golfe aos 10 anos com seu pai e irmãos, e se tornou profissional aos 19, enquanto estudava marketing, economia e direito na Universidade Aranasskolan & Komvux (Suécia), onde se formou em 1995. Ela integra o LPGA Tour (Ladies Professional Golf Association Tour) desde 1998 e é sócia vitalícia do LET (Ladies European Tour) desde 1992. Ela tem em seu currículo 5 títulos no LPGA e 21 títulos internacionais, totalizando uma premiação de mais de 6 milhões de dólares como profissional. Por ter gagueira, Gustafson raramente concede entrevistas e manteve-se assim ao longo de toda a carreira, abrindo uma exceção durante a Solheim Cup 2011, quando falou abertamente do motivo de sua discrição em uma entrevista concedida ao Golf Channel. Como reconhecimento a seu ato de coragem, ela foi premiada no início de 2012 com o troféu Ben Hogan, honraria concedida a atletas que inspiram as pessoas pela forma como lidam com suas deficiências. Endereço de contato no twitter: twitter.com/sophiegustafson

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A Grande Tacada de Sophie http://www.gagueiraonline.com.br/blog/2012/04/a-grande-tacada-de-sophie/ http://www.gagueiraonline.com.br/blog/2012/04/a-grande-tacada-de-sophie/#comments Thu, 19 Apr 2012 13:56:08 +0000 Ignês http://www.gagueiraonline.com.br/blog/?p=2872 A grande tacada da golfista Sophie Gustafson

Phoenix, Arizona (EUA) — Em uma terça-feira recente, a golfista Sophie Gustafson sentou-se diante de uma câmera para gravar um discurso de seis minutos e meio que ela tinha preparado para um jantar de premiação agendado para o Masters de Augusta, em abril. Sozinha com a câmera em sua casa em Orlando, Flórida, Gustafson esperava conseguir gravar o discurso sem tropeços. Ela terminou a tarefa oito horas mais tarde. Foi uma dura lembrança para Gustafson, que tem gagueira, de que falar — mesmo quando ninguém está presente — nunca é uma tarefa simples. Em sua página no twitter, no dia da gravação, ela resumiu da seguinte maneira a situação: “Posso dizer que gagueira e perfeccionismo são duas coisas absolutamente inconciliáveis!!”.

Gustafson é sueca, tem 38 anos, 1,78m de altura, corpo atlético, olhos da cor de esmeralda e cabelos castanhos, cortados na altura dos ombros e em franja. Ela poderia facilmente trabalhar como modelo para uma grife de trajes de banho. Porém, apesar da aparência de modelo e do brilhante currículo profissional — 26 títulos mundiais, sendo 5 deles no LPGA (Ladies Professional Golf Association, a mais competitiva liga de golfe feminino do mundo) —, Gustafson passou todos os seus 21 anos de carreira profissional à margem dos holofotes.

Entrevista de Sophie Gustafson ao Golf Channel.

Entrevista de Sophie ao Golf Channel: três minutos e meio de prender a atenção (clique p/ assistir com legendas).

Ela tem evitado as câmeras de televisão desde que entrou para o concorrido LPGA, em 1998, e não parou de se esquivar delas até o final do ano passado. Contudo, antes de sua oitava aparição no torneio Solheim Cup (um dos eventos mais tradicionais do golfe feminino — e o preferido dela), Gustafson resolveu falar sobre sua gagueira e responder perguntas anotadas em uma caderneta durante uma memorável entrevista (v. vídeo ao lado) gravada pelo Golf Channel. Em três minutos e meio de prender a atenção do telespectador, ela deu voz àqueles que por muito tempo foram silenciados pela vergonha.

“A gagueira dificilmente consegue a atenção da imprensa em algum lugar do mundo, porque nós não falamos”, disse Gustafson. “Evitamos falar sempre que po­demos. Acho que isso precisa mudar e, se eu puder ser uma pequena parte dessa mudança, seria muito legal.”

Durante uma conversa, Gustafson é como um piloto de corrida negociando ultrapassagens em uma pista cheia de obstáculos. Quando as palavras começam a derrapar, ela tenta friamente manter a direção e recuperar o controle de suas fra­ses. “Sou muito impaciente, e acho que isso realmente é um pequeno motivo que contribui para minha gagueira”, diz Gustafson. “Não me preocupo em usar o tempo a meu favor enquanto estou falando.”

Gustafson, que vai competir esta semana no Kraft Nabisco Championship, o primeiro dos quatro torneios principais da temporada anual do LPGA, disse que tentou uma variedade de tratamentos, entre eles fonoaudiologia, acupuntura e medicamentos. Os medicamentos chegaram a aliviar a gagueira, mas prejudicaram seu desempenho no golfe, então ela decidiu parar de tomá-los.

Gustafson em ação no primeiro dia da Solheim Cup 2011.

Gustafson em ação no primeiro dia da Solheim Cup 2011, torneio em que ela decidiu falar abertamente sobre sua gagueira. (clique p/ ampliar)

Dr. Heather Grossman, diretor clínico do American Institute for Stuttering, disse que seria necessário “um monte de almas corajosas” como Gustafson para mudar a forma como a sociedade vê os cerca de 4 milhões de pessoas que gaguejam nos EUA e 70 milhões em todo o mundo. “Acho que a constante percepção pública de que as pessoas que gaguejam são emocionalmente instáveis, nervosas ou pouco inteligentes ajuda a perpetuar o sentimento de que é melhor esconder a gagueira”, disse Grossman.

O esporte tem servido como palco para outras pessoas que gaguejam, entre elas os jogadores de basquete Bill Walton e Ron Harper, o golfista Ken Venturi, o running back da NFL Darren Sproles e a estrela poliesportiva Bo Jackson. Walton e Venturi chegaram a se tornar comentaris­tas de televisão.

Para atletas habituados a ter um comando apurado de seus corpos, ter tão pouco controle sobre sua fala pode ser algo especialmente frustrante. A pesquisa científica tem mostrado que o cérebro de pessoas que gaguejam possui conexões diferentes. A genética influencia no surgimento do distúrbio — Gustafson tem uma tia que gagueja, e seus dois irmãos mais velhos apresentaram gagueira quando jovens, mas neles o problema não persistiu na idade adulta.

A gagueira de Gustafson afetou sua vida dentro e fora dos campos de golfe. “Eu não tenho muita vontade de ter filhos, e a gagueira certamente contribuiu para esta decisão”, disse Gustafson. Em 2006, ela se casou com Ty Votaw, que ela conheceu quando ele trabalhava como comissário do LPGA. Quatro anos depois, eles se divorciaram. “Meu ex sempre fazia tudo para mim”, disse ela. “Era confortável, porque ele é uma pessoa expansiva. Assim, eu poderia ficar sempre em segundo plano, não precisava fazer nada. Só depois percebi o quanto suas ações, apesar de bem-inten­cio­nadas, eram na verdade paralisantes para mim.” Ela acrescentou: “Não estávamos muito bem quando resolvemos terminar a relação. O problema todo era que ele não gostava mais da pessoa que suas ações tinham me tornado. Não me importo em receber um pouco de ajuda de vez em quando, mas eu quero, e preciso, ficar de pé com meus próprios pés.”

Sophie Gustafson tem 38 anos de idade, 21 anos de carreira e 26 títulos no circuito profissional de golfe.

Em 21 anos como golfista profissional, Sophie Gustafson venceu 26 torneios, incluindo 5 títulos do concorrido LPGA, mas a gagueira sempre a manteve distante das entrevistas e dos holofotes do circuito. (clique p/ ampliar)

Falar em público é uma área de risco máximo para Gustafson. Ela disse que o medo de ter que fazer o discurso da vitória pode ter lhe custado alguns títulos. No início de sua carreira, ela estava apavorada com a idéia de ter que falar com fãs e patrocinadores depois de uma vitória. Em 1996, os treinadores da equipe nacional de golfe propuseram um exercício em que ela deveria fazer uma simulação do discurso da vitória. Ela se levantou e disse: “Obri­gada”. Seis semanas depois, ela ganhou seu primeiro torneio profissional. Vendo em retrospectiva, Gustafson disse que o mo­mento não foi mera coincidência. Ao fazer o falso discurso, ela acre­dita que pode ter se libe­rado para ter sucesso.

A gagueira de Gustafson é mais pro­nun­ciada em algumas situações do que em outras. Ao dizer frases curtas, falar em particular com seu caddie durante a com­petição ou conver­sar em sueco (sua língua nativa), a fala de Gustafson tende a ser tão fluente quanto o swing de sua tacada.

O golfe é uma ativi­dade solitária, e as pessoas familiarizadas com a história de Gustafson podem supor que esta foi a razão que a atraiu para o esporte. Na verdade, foi o aspecto social do jogo que levou Gustafson a praticá-lo, pois ela começou acompa­nhando seus pais e irmãos. “Minha família inteira começou ao mesmo tempo e íamos juntos jogar golfe nas férias”, disse ela.

O esporte sempre foi a forma de Gustafson se conectar com o mundo, em vez de fugir dele. Ela jogava partidas intermináveis com seu irmão Par, três anos mais velho que ela. “Havia sempre uma turma de crianças no clube em que cresci”, disse Gustafson. “Nós nos divertíamos muito; acho que, mais do que o golfe, era a diversão o que mais nos atraía.”

Esqueça timidez: na verdade, diversão é a palavra que melhor descreve a personalidade de Gustafson. Seu espírito divertido vem à tona através de seu Twitter, sua página no Facebook ou seu blog (sophiegustafson.com). As redes sociais são as fer­ramentas de comunicação que destravaram a voz de Gustafson. “É maravilhoso”, falou ela, acrescentando: “Acho que tenho algumas coisas boas a dizer”.

Gustafson tem um senso de humor e um brilho no olhar que nos fazem lembrar da comediante Lily Tomlin. Antes da Founders Cup, o primeiro evento do ano da turnê profissional nos EUA, Gustafson jogou nove buracos no Wildfire Golf Club com quatro parceiros amadores. Quando um deles desperdiçou uma chance fácil de birdie em um putt curto de subida, Gustafson invadiu o campo fazendo a dancinha da galinha e cacarejando de forma engraçada. Todos no grupo riram da brincadeira, inclusive o executivo da Coca-Cola que era seu alvo. No entanto, o alvo mais frequente das brincadeiras de Gustafson é ela mesma. “Sophie tem um senso de humor brilhante”, disse Gail Graham, ex-golfista profissional que agora trabalha no LPGA. “Ela é uma daquelas pessoas que atraem a simpatia de todos ao seu redor.”

No filme “O Discurso do Rei”, vencedor do Oscar 2011 (clique para ver o trailer legendado), o público que frequenta os cinemas teve a chance de se familiarizar com uma pessoa com gagueira, o Rei George VI da Inglaterra, e também com o fonoaudiólogo que o ajudou a lidar melhor com seu distúrbio de fala. Gustafson assistiu ao filme durante um voo.

Sophie Gustafson com um dos 26 troféus conquistados em sua carreira profissional.

Sophie Gustafson com um dos 26 troféus conquistados em sua carreira profissional. (clique p/ ampliar)

“Eu achei muito, muito bom”, disse ela, acrescentando: “Para mim, a coisa que mais se destacou no filme foi que, embora a gagueira seja obviamente frustrante para a pessoa que gagueja, eu nunca tinha parado para pensar no quanto deve ser frustrante para as outras pessoas quando elas sabem que você tem algo a dizer, mas não consegue pôr para fora.” Colin Firth, o ator que ganhou o Oscar por sua interpretação de George VI, disse: “Me emocionei muito com a dignidade e o heroísmo daqueles que precisam empreender esta batalha, tendo que lutar diariamente para conquistar algo que o resto de nós usa sem nem se dar conta do valor.”

A coragem de Sophie Gustafson foi reconhecida em abril de 2012 com o Prêmio Ben Hogan.

Sophie Gustafson com o Prêmio Ben Hogan, concedido a atletas que inspiram as pessoas pela forma como lidam com suas deficiências. (clique p/ ampliar)

A coragem de Gustafson foi reconhecida pela Associação Americana de Jornalistas de Golfe, que a escolheu para receber este ano o Prêmio Ben Hogan, dado a esportistas que lidam com uma deficiência física ou doença grave. Aqueles que viram o vídeo do discurso de aceitação preparado por Gustafson para a cerimônia em Augusta, Geórgia (EUA), comentam que ela estava afiada e de bom humor, contrastando com o enorme esforço das oito horas necessárias para concluí-lo.

“Quando a câmera estava lá, não foi tão fácil quanto eu esperava”, disse Gustafson. “Repeti várias e várias vezes, a fim de que ficasse do jeito que eu queria. Finalmente, tive que desistir e dizer: ‘Não vai ser exatamente do jeito que eu quero que seja’.” Graham se emociona quando fala da crescente desenvoltura de Gustafson diante dos holofotes. “Ela tem sido discreta por todos esses anos”, disse Graham. “Agora as pessoas vão poder conhecer a Sophie que todos nós conhecemos e amamos.”

Entrevista de Sophie Gustafson ao Golf Channel

Fonte original da notícia: Swedish Golfer Confronts Toughest Foe: Her Stutter

Sobre a atleta

Sophie Gustafson nasceu em 27 de dezembro de 1973 na cidade de Varberg, sul da Suécia. Ela começou a jogar golfe aos 10 anos com seu pai e irmãos, e se tornou profissional aos 19, enquanto estudava marketing, economia e direito na Universidade Aranasskolan & Komvux (Suécia), onde se formou em 1995. Ela integra o LPGA Tour (Ladies Professional Golf Association Tour) desde 1998 e é sócia vitalícia do LET (Ladies European Tour) desde 1992. Ela tem em seu currículo 5 títulos no LPGA e 21 títulos internacionais, totalizando uma premiação de mais de 6 milhões de dólares como profissional. Por ter gagueira, Gustafson raramente concede entrevistas e manteve-se assim ao longo de toda a carreira, abrindo uma exceção durante a Solheim Cup 2011, quando falou abertamente do motivo de sua discrição em uma entrevista concedida ao Golf Channel. Como reconhecimento a seu ato de coragem, ela foi premiada no início de 2012 com o troféu Ben Hogan, honraria concedida a atletas que inspiram as pessoas pela forma como lidam com deficiências físicas ou doenças graves. Endereço de contato no twitter: twitter.com/sophiegustafson

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Gagueira, audição e motricidade http://www.gagueiraonline.com.br/blog/2011/09/gagueira-audicao-e-controle-motor/ http://www.gagueiraonline.com.br/blog/2011/09/gagueira-audicao-e-controle-motor/#comments Tue, 27 Sep 2011 19:43:11 +0000 Ignês http://www.gagueiraonline.com.br/blog/?p=2544 Integração auditivo-motora tem papel chave na fluência

Pessoas que gaguejam integram som e movimento em parte diferente do cérebro, revela novo estudo.

Ouvir Mozart em alto volume enquanto se recita Shakespeare pode suprimir momentaneamente a gagueira em pessoas que possuem o distúrbio. O fenômeno, mostrado no filme vencedor do Oscar 2011 (veja figura), não foi usado na história apenas como um mero recurso de ficção. Apesar de efêmero, o efeito quase miraculoso obtido a partir do mascaramento auditivo – nome dado à estratégia clínica de indução de fluência em que a pessoa que gagueja fica impedida de escutar o som da própria voz – é real e indica que a integração das funções auditiva e motora desempenha um papel chave na fluência (ou disfluência) da fala.

Lionel Logue aplica a técnica do mascaramento auditivo em Bertie.

Lionel Logue aplicando a técnica do mascaramento auditivo em Bertie em cena do filme O Discurso do Rei. Efeito obtido com a técnica não é ficcional e indica que a integração das funções auditiva e motora desempenha um papel chave na fluência (ou disfluência) da fala. (clique p/ ampliar)

Ao investigar como se dá a integração auditivo-motora no cérebro de pessoas com gagueira, uma nova pesquisa descobriu algo revelador: em adultos que gaguejam desde a infância, os processos que integram som e movimento estão localizados em uma parte diferente do cérebro quando os comparamos com adultos que não gaguejam. A surpreendente descoberta foi publicada na edição de setembro de 2011 da revista científica CortexReferência bibliográfica do artigo: SOMMER, Martin et al. Right-shift for non-speech motor processing in adults who stutter. Cortex. 2011 Sep;47(8):945-54. Clique no link abaixo para acessar o site do periódico. .

Dra. Nicole Neef e Dr. Martin SommerClique para assistir a uma entrevista legendada com o médico e neurocientista alemão Martin Sommer, pesquisador que entende de gagueira tanto cientificamente quanto vivencialmente, pois ele é também uma pessoa que gagueja. da Universidade de Göttingen, juntamente com a Dra. Bettina Pollok da Universidade de Duesseldorf, estudaram o desempenho de um grupo de adultos que gaguejam, bem como de um grupo controle de adultos que não gaguejam, em um exercício de bater os dedos das mãos em sincronia com um som. Eles então usaram estimulação magnética transcraniana para interferir temporariamente com a atividade cerebral no córtex pré-motor dorsolateral (v. fig.) enquanto os participantes batiam os dedos em sincronia com os cliques que estavam ouvindo.

Integração auditivo-motora ocorre no córtex pré-motor dorsolateral.

Em movimentos que dependem de input auditivo, a integração das funções auditiva e motora ocorre no córtex pré-motor dorsolateral. (clique p/ ver descrição)

No grupo controle, a perturbação do córtex pré-motor esquerdo prejudicou a sincronia das batidas, mas a perturbação do córtex pré-motor direito não teve nenhum efeito sobre a tarefa. No grupo de adultos com gagueira, o padrão foi invertido: a precisão da batida foi afetada quando o córtex pré-motor direito estava sendo perturbado; perturbar o lado esquerdo não interferiu na execução da tarefa.

Pesquisas anteriores já haviam mostrado que a gagueira estava relacionada a um fluxo de sangue maior que o normal nas áreas motoras e pré-motoras do hemisfério direito durante a fala. Neste novo estudo, a mudança no local de integração das funções auditiva e motora para o lado direito do cérebro ocorreu mesmo em uma tarefa que não envolvia diretamente a fala.

Assim, no cérebro de adultos que gaguejam, parece ter ocorrido uma profunda reorganização de algumas redes neurais, possivelmente compensando sutis alterações na matéria branca nas regiões frontais inferiores do hemisfério esquerdo do cérebro – o hemisfério naturalmente habilitado a processar fala.

Nas palavras dos autores do estudo:

“Esta descoberta indica uma extensa reconexão neuronal das funções relacionadas à temporalização do movimento em pessoas que gaguejam, dando suporte à hipótese de uma abrangente reorganização neurofisiológica do sistema de controle motor em pessoas que gaguejam. Uma vez que, antes do uso de estimulação magnética transcraniana, o desempenho de ambos os grupos na tarefa não diferiu, sugerimos que o envolvimento aumentado do córtex pré-motor dorsolateral direito em pessoas que gaguejam, ao invés de ser um processo contra-adaptativo, representa na verdade um processo de compensação.”

Este estudo lança mais luz sobre a extensão das alterações cerebrais na gagueira do desenvolvimento persistente, mostra que o distúrbio possui assinaturas neurológicas muito distintas e também evidencia que, futuramente, será possível refinar o diagnóstico da gagueira através de exames que vão além da análise da fala do paciente.

Veja abaixo entrevista com o pesquisador Martin Sommer

Sobre o pesquisador

Dr. Martin Sommer graduou-se na Faculdade de Medicina de Aachen, Alemanha, em 1996. Depois de estudar em Toulouse (França) e no NIH, em Bethesda, Maryland (EUA), ele se estabeleceu na Universidade de Goettingen, Alemanha, onde fez residência em Neurologia e aprimorou sua formação científica. Atualmente, é consultor e professor do Departamento de Neurofisiologia Clínica da Universidade. Seu foco clínico e de pesquisa é a fisiologia do movimento, particularmente no Parkinson e na distonia. Sendo uma pessoa que gagueja, ele emprega ferramentas de neuroimagem e ensaios neurofisiológicos, como a estimulação magnética transcraniana, para elucidar a fisiopatologia da gagueira persistente. Foi ele o responsável pela primeira forte evidência de uma causa física para a gagueira, quando, em 2002, documentou a existência de rupturas microscópicas na matéria branca no hemisfério esquerdo de pessoas que gaguejam, em estudo pioneiro publicado na revista Lancet. Atualmente, Sommer atua como vice-presidente da Associação Alemã de Gagueira. E-mail para contato: msommer@gwdg.de

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Reportagens na TV brasileira http://www.gagueiraonline.com.br/blog/2011/05/gagueira-reportagens-na-tv-brasileira/ http://www.gagueiraonline.com.br/blog/2011/05/gagueira-reportagens-na-tv-brasileira/#comments Mon, 16 May 2011 17:02:57 +0000 Ignês http://www.gagueiraonline.com.br/blog/?p=2467 Reportagens sobre gagueira em programas matutinos da TV brasileira

A atenção dispensada pela mídia nacional e internacional ao tema da gagueira teve um boom sem precedentes durante as semanas que se seguiram ao Oscar 2011. A história real contada pelo filme O Discurso do Rei trouxe à tona uma informação familiar a quem conhece o distúrbio, mas relativamente desconhecida do público geral: a constatação de que a gagueira do desenvolvimento persistente é um distúrbio universal, que não distingue reis ou plebeus.

Aqui no Brasil, obtivemos uma grande cobertura da mídia em geral. Jornais, revistas, rádio, TV e internet veicularam amplamente informações sobre a gagueira. Como é possível ver nos vídeos abaixo, as redes Globo e Record também abordaram o tema de uma forma cuidadosa em seus programas. Esperamos que estes veículos continuem reconhecendo a importância do tema e o levem para programas de abordagem mais aprofundada e específica. Afinal, não se pode negar que a boa comunicação contribui e muito para a saúde e o bem-estar do ser humano.

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Realidade virtual aplicada ao tratamento da gagueira http://www.gagueiraonline.com.br/blog/2011/04/realidade-virtual-aplicada-ao-tratamento-da-gagueira/ http://www.gagueiraonline.com.br/blog/2011/04/realidade-virtual-aplicada-ao-tratamento-da-gagueira/#comments Mon, 18 Apr 2011 16:12:55 +0000 Ignês http://www.gagueiraonline.com.br/blog/?p=2213 Realidade virtual aplicada ao tratamento da gagueira

Uma equipe de pesquisadores do Cleveland Hearing and Speech Center (Cleveland, EUA) está utilizando uma ferramenta tecnológica inovadora para tratar algumas consequências da gagueira e facilitar o dia a dia dos pacientes que possuem o distúrbio.

A ansiedade antecipatória e o grande desconforto que muitas pessoas com gagueira sentem quando precisam realizar tarefas diárias que requerem a fala – como, por exemplo, fazer um pedido em uma lanchonete ou restaurante – podem ser trabalhados e atenuados por meio deste método, de modo que essas tarefas se transformem em experiências menos desgastantes para o paciente.

O método inovador consiste em um ambiente de simulação virtual inspirado na cabine da nave Star Trek (veja vídeo abaixo). Parece uma espécie de minissala de cinema, mas o que a tela mostra é uma simulação bastante convincente do mundo real, permitindo que os pacientes apliquem na prática, em um ambiente seguro, as técnicas de fluência que aprenderam em terapia.

Como as situações retratadas no laboratório de realidade virtual são muito semelhantes àquelas que os pacientes vão encontrar no mundo lá fora, a exposição repetida à circunstância que gera desconforto propicia uma dessensibilização do paciente. Assim, a reação secundária de ansiedade que surge como consequência da gagueira pode ser gradualmente atenuada.

Realidade virtual permite trabalhar sintomas fóbicos que surgem como consequência da gagueiraA criadora do projeto, Dra. Stacy Williams, Ph.D. em distúrbios da comunicação pela Universidade de Cincinnati, controla através do computador as respostas dos atores virtuais que dão vida à simulação. “Podemos criar qualquer tipo de situação de treinamento apenas com um toque de botão”, afirma Stacy. Dessa forma, qualquer situação de comunicação que traga desconforto emocional ou psicológico ao paciente com gagueira pode ser recriada e vivenciada em laboratório, de modo a torná-la cada vez menos difícil de suportar.

“O medo de ser ridicularizado, o receio de ser julgado de forma preconceituosa, o sentimento de vergonha que a gagueira traz, tudo isso contribui para o desenvolvimento de reações fóbicas associadas ao distúrbio. Através da realidade virtual, podemos trabalhar de forma bem mais eficaz essas consequências da gagueira e evitar que elas contribuam para o agravamento do quadro”, afirma Stacy.

Ao contrário do mundo real, o laboratório de simulação virtual permite que eles pratiquem e repitam quantas vezes precisar, até que consigam lidar melhor com o desconforto causado pela gagueira. Enquanto isso, monitores fisiológicos medem a frequência cardíaca e a temperatura da pele. “É uma forma de saber se o paciente está realmente sentindo aquela experiência como real”, diz Stacy.

Esse método também pode ser usado para beneficiar muitos estudantes. Michael Molinaro, estudante de fonoaudiologia, está fazendo uso do simulador para aprimorar suas habilidades de atendimento. O programa pode colocá-lo em um cenário junto com os pais ou o paciente. “É fantástico. É realmente uma incrível ferramenta de aprendizado que podemos usar para nos tornarmos melhores fonoaudiólogos”, diz Michael.

“Os estudantes estão aprendendo como interagir com pessoas, como fazer perguntas importantes, como obter a informação correta, refletir sobre isso e chegar a uma boa decisão ou diagnóstico”, diz Stacy. Dra. Williams está agora aguardando a aprovação do FDA para ampliar a utilização clínica do método e começar a aplicá-lo também com crianças.

Assista abaixo à reportagem com legendas em português

Sobre a idealizadora do projeto

Dra. Stacy Williams concluiu em 2004 seu Ph.D. em Ciências e Distúrbios da Comunicação pela Universidade de Cincinnati. Ela começou sua carreira como fonoaudióloga escolar, em 1997, trabalhando para o Centro de Serviços Educacionais do Condado de Hamilton (Ohio). Durante sua prática clínica, ela começou a criar e personalizar programas para crianças com distúrbios de fala e linguagem. Atualmente, Dra. Williams é diretora do site SpeechPathology.com e professora adjunta da Universidade Case Western Reserve, em Cleveland (Ohio). Ela é também diretora do Centro de Imersão Virtual para Simulação e Pesquisa e trabalha como diretora tecnológica da Associação de Fonoaudiologia do Estado de Ohio. Sua principal área de atuação é a integração de tecnologias de simulação ao campo da fonoaudiologia. E-mail para contato: swilliams@speechpathology.com

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Belo depoimento em vídeo http://www.gagueiraonline.com.br/blog/2011/03/gagueira-depoimento-por-que-me-tornei-especialista/ http://www.gagueiraonline.com.br/blog/2011/03/gagueira-depoimento-por-que-me-tornei-especialista/#comments Wed, 16 Mar 2011 18:53:41 +0000 Ignês http://www.gagueiraonline.com.br/blog/?p=2161 A ASHA – American Speech-Language-Hearing Association (Associação Americana de Fala, Linguagem e Audição) – mantém no youtube um canal que reúne vários depoimentos em vídeo colhidos entre os membros da associação. Os depoimentos trazem histórias de sucesso profissional, experiências marcantes de vida e diversos relatos sobre o que os torna tão apaixonados pelo trabalho que realizam como fonoaudiólogos.

Entre os depoimentos do canal, um dos que mais se destacam é o da jovem fonoaudióloga Chamonix Olsen Sikora, atual diretora do American Institute for Stuttering. No vídeo, ela narra a história que a fez decidir qual área de especialização deveria seguir dentro da fonoaudiologia. O vídeo tem pouco mais de um minuto e nos traz uma verdadeira lição de empatia e sensibilidade. Assistam abaixo. Vale a pena.

Depoimento - Por que me tornei especialista em gagueira

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Análise do Discurso do Rei http://www.gagueiraonline.com.br/blog/2011/03/analise-do-discurso-do-rei/ http://www.gagueiraonline.com.br/blog/2011/03/analise-do-discurso-do-rei/#comments Tue, 01 Mar 2011 20:34:41 +0000 Ignês http://www.gagueiraonline.com.br/blog/?p=1520 Na imprensa e na blogosfera brasileiras, muitas pessoas estão escrevendo sobre o grande vencedor do Oscar 2011 — o premiadíssimo filme O Discurso do Rei. No entanto, por terem pouco familiaridade com a gagueira, a maioria dos autores dos textos que a gente lê por aí não consegue captar alguns aspectos fundamentais do drama retratado no filme e muitos cometem erros grosseiros ao conjecturar sobre a origem da dificuldade de fala do rei.

Mas o texto abaixo, publicado originalmente no site do Instituto Brasileiro de Fluência (IBF)ONG que desenvolve ações para aumentar o nível de esclarecimento da sociedade sobre gagueira e distúrbios afins, melhorando assim a prevenção, o diagnóstico e o tratamento das desordens de comunicação que afetam a fluência da fala. Clique no link abaixo para acessar o site do Instituto. , apresenta uma perspectiva diferente de análise. Escrito por uma pessoa que gagueja, ele preenche a lacuna das outras resenhas ao fornecer um ponto de vista insubstituível: o de quem, assim como o protagonista do filme, vivencia a gagueira no dia a dia.

Por se tratar de um texto longo, ele foi convenientemente dividido em 10 capítulos que podem ser lidos individualmente. Para recolher ou abrir cada capítulo, basta clicar sobre seu respectivo título. Para comentar o texto, use a caixa de comentários mais abaixo.

Uma análise em 10 capítulos do filme O Discurso do Rei

Por HUGO SILVA*

1 - A incerteza da fala

Cena de abertura do filme 'O Discurso do Rei'.

Colin Firth captura com maestria todo o pavor carregado de adrenalina de uma pessoa que gagueja no momento em que se vê obrigada a falar em público – quando a própria fala é para ela uma coisa totalmente incerta. (clique p/ ampliar)

Falar em público é um item que geralmente aparece nas primeiras posições quando se elaboram rankings sobre coisas estressantes na vida, acima até mesmo de divórcio, morte ou endividamento. Mas há na cena de abertura do filme “O Discurso do Rei” uma expressão no rosto do protagonista que vai além de qualquer definição usual do medo de palco que normalmente nos aflige quando temos que falar em público.

Enquanto o homem que um dia se tornará Rei George VI prepara-se para fazer um breve pronunciamento protocolar em uma cerimônia, sua fisionomia sugere que há algo maior do que apenas a atenção da plateia causando-lhe incômodo e preocupação. A razão do incômodo logo se esclarece: nosso protagonista tem gagueira persistente e precisa enfrentar o tempo todo um inimigo invisível que, a qualquer momento, pode investir impiedosamente contra sua fala e paralisá-la com rupturas e bloqueios involuntários.

Colin Firth, que no filme interpreta “Bertie”, apelido familiar do segundo filho do Rei George V da Grã-Bretanha, captura com maestria todo o pavor carregado de adrenalina de uma pessoa que gagueja no momento em que se vê obrigada a falar em público – quando a própria fala é para ela uma coisa totalmente incerta. Qualquer pessoa habituada a conviver com os empecilhos e aflições da gagueira pode reconhecer muito bem os sintomas corporais tão bem encenados pelo ator: a face consternada, o andar de quem está prestes a desmaiar, a aceitação passiva da morte nos olhos.

(Continua…)

2 - A extrema solidão de quem gagueja

A extrema solidão de quem gagueja.

A antológica sequência de abertura do filme ‘O Discurso do Rei’ é um retrato comovente da extrema solidão de uma pessoa que gagueja.

O diretor Tom Hooper conduz esta cena de abertura do filme filmando-a a partir da perspectiva opressiva de uma pessoa que vê um humilhante obstáculo onde a grande maioria das pessoas vê apenas palavras corriqueiras. O intenso suspense psicológico, gerado a partir de um elemento tão banal quanto o ato de falar, é algo quase Hitchcockiano. À medida que o personagem de Firth avança lentamente em direção a seu algoz, o microfone, com o ruído apreensivo da multidão ao fundo, sua leal esposa, a futura Rainha Mãe (interpretada por Helena Bonham Carter), oferece apoio incondicional, mas nessa hora não há nada que possa amenizar a extrema solidão de uma pessoa que gagueja.

A sensação de isolamento é irônica, pois tipicamente a dificuldade de comunicação para a pessoa que gagueja é tanto maior quanto maior o número de pessoas à sua volta. (A gagueira, assim como a disfonia espasmódica – outro distúrbio neurológico da fala –, tende a suavizar quando a pessoa está sozinha, falando para si mesma). Por muito tempo o distúrbio foi considerado um mistério, dando margem a especulações sobre uma possível origem psicológica. Na maioria dos casos, momentos de fala fluente se alternam intermitentemente com repetições, bloqueios e contorções da face. De forma ainda mais estranha, a fala cantada normalmente ocorre sem qualquer empecilho.

(Continua…)

3 - Entendimento dúbio

Gagueira: Se é difícil para um rei, imagine para um plebeu.

A gagueira é um distúrbio frequentemente subestimado. No entanto, ela pode causar um impacto considerável na vida de quem a possui e não faz distinção entre reis ou plebeus. (clique p/ ampliar)

Essas peculiaridades deram à gagueira um entendimento meio dúbio. Enquanto outras deficiências avançavam em suas conquistas, a gagueira mal conseguia ser entendida como tal. Na maioria dos casos, pais e professores tentam tratar a gagueira apenas como uma pequena dificuldade, não como uma condição capaz de alterar completamente a vida de alguém (ainda que, dependendo da severidade, seja exatamente este o tamanho do impacto que ela pode ter). Ainda hoje prevalece a visão da gagueira como algo sem nenhuma gravidade, nenhuma desvantagem, nenhuma deficiência séria. A consequência dessa desinformação é a ausência de qualquer política inclusiva voltada à pessoa que gagueja.

Já que a maioria das crianças que experimentam episódios de bloqueios na fala não se transformam em adultos gagos, há uma suposição de que a gagueira é algo que deve obrigatoriamente ficar para trás, assim como a lancheira da escola. Quando a condição se mostra refratária à remissão, é frequentemente recebida com uma atitude cética e impaciente, como se a pessoa fosse capaz de fazer o problema desaparecer apenas porque seu interlocutor assim o deseja. Para as pessoas que não conseguem tolerar a visão de uma fala levemente fora do padrão, a reação inicial de indagação (por que este pobre garoto não fala direito?) cede lugar a uma reação de intolerância.

(Continua…)

4 - Zombaria e charlatanismo

Esquisitices usadas no tratamento da gagueira na década de 30.

Esquisitices usadas no tratamento da gagueira na década de 30 – fumar cigarro, encher a boca com bolinhas de gude e rolar no chão (reflexos da grande falta de conhecimento que se tinha do distúrbio naquela época).

O pobre Bertie foi submetido às duas maiores provações enfrentadas por quem tem gagueira: a zombaria e o charlatanismo. A zombaria partia até mesmo do próprio irmão (v. vídeo abaixo). O charlatanismo vinha de terapeutas que tentaram aplicar com ele a técnica da boca cheia de pedras que Demóstenes praticou na Grécia Antiga, entre outras esquisitices (v. figura ao lado).

Como muitas pessoas que gaguejam, o método natural de Bertie para enfrentar a gagueira era a discrição, evitar situações que deixassem evidente sua dificuldade e exacerbassem sua vergonha. O refúgio seguro de uma carreira inteiramente dedicada aos livros (como fizeram, por exemplo, John Updike, Machado de Assis e José Saramago) estava fora de questão. Ao contrário desses gagos ilustres, Bertie não teve liberdade para escolher seu destino profissional, que já estava mais ou menos determinado desde o nascimento.

(Continua…)

5 - O drama central

Com o advento do rádio, os reis foram obrigados a desempenhar seu papel cerimonial de forma mais regular.

Fazer discursos, não apenas ao vivo e em pessoa, mas também através do rádio – a grande novidade tecnológica da época –, tornou-se uma forma de evitar a crescente obsolescência da monarquia.

O apuro de Bertie foi aumentando à medida que as expectativas em torno dele cresceram. Ambientado na década de 30, o filme mostra as mudanças políticas e sociais que obrigaram os reis a desempenhar seu papel cerimonial de forma mais regular. Fazer discursos, não apenas ao vivo e em pessoa, mas também através do rádio – a grande novidade tecnológica da época –, tornou-se uma forma de evitar a crescente obsolescência da monarquia. Enquanto a crise global se avolumava, com a Depressão de 30 desembocando na Segunda Guerra Mundial, a imagem de liderança associada à figura do rei se tornava cada vez mais cobrada. Bertie era totalmente avesso à ideia de ser rei e nem estava cotado para o cargo, mas a história se move de forma imprevisível, e a lei universal da inexorabilidade – segundo a qual o inimigo do qual mais você foge será justamente aquele que ao fim você terá de enfrentar – parece ter operado de forma implacável para o príncipe.

Escandalosa renúncia de Eduardo VIII deflagrou a crise da abdicação.

Irmão mais velho de Bertie abdicou do trono valendo-se da seguinte alegação: “Sinto-me impossibilitado de cumprir meu pesado fardo de responsabilidades sem o apoio da mulher que amo”. No entanto, sua decisão transferiu para os ombros de Bertie um fardo ainda mais pesado.

Depois da morte de seu pai, George V (interpretado por Michael Gambon), o irmão mais velho de Bertie, o dissoluto David (Guy Pearce), torna-se rei Eduardo VIII. Porém, ele não demonstra nenhum interesse em se submeter às exigências burocráticas da função, e sua intenção de se casar com uma atriz americana duas vezes divorciada não é tolerada pela igreja anglicana. Em vez de pôr fim à relação, ele opta por abdicar do trono. E então o drama central do filme vem à tona: a gagueira de Bertie inviabilizará seu reinado e também o levará à renúncia, ainda que ele tenha direito legítimo ao trono na linha de sucessão e possua caráter e educação compatíveis com os desafios do cargo?

(Continua…)

6 - Gagueira deixou de ser mistério - precisa agora deixar de ser piada

Tecnologias recentes ajudaram a ciência a remover a espessa nuvem de mistério em torno da gagueira.

PET scan, fMRI, ressonância por tensor de difusão e hibridização genômica comparativa – tecnologias recentes que permitiram à ciência moderna remover a espessa nuvem de mistério que encobria a gagueira. (clique p/ ampliar)

Poucos imaginavam que chegaria o dia em que a gagueira seria assunto de um filme sério e de grande repercussão. Afinal, o distúrbio foi transformado em motivo de piada na cultura popular. A piada foi passada adiante e revigorada geração após geração, auxiliada por personagens caricatos e estereotipados em filmes como “Um Peixe Chamado Wanda” e “Meu Primo Vinny”. Hoje, a associação entre gagueira e humor está tão entranhada no inconsciente coletivo que, quando uma pessoa que gagueja mostra sua deficiência em público, o impulso inicial da maioria dos espectadores é esboçar uma risadinha, como se a pessoa que gagueja fosse um involuntário comediante em tempo integral, fazendo o tempo todo exibições gratuitas de standup comedy.

A incompreensão social também se reflete no entendimento que as pessoas que gaguejam têm de si mesmas. Para muitas delas, não é fácil admitir que o mau funcionamento de sua fala não se deve meramente a questões emocionais, nervosismo, ansiedade ou conflitos internos mal resolvidos. Algumas perdem vários anos de sua vida tentando solucionar o mistério e sonhando em conseguir a tão almejada cura por meio da resolução dos supostos entraves psicológicos.

Mas a ciência da gagueira tem evoluído bastante nos últimos anos, oferecendo uma compreensão bem mais sofisticada do distúrbio do que era possível na época de Bertie. Hoje já são conhecidas 10 mutações genéticas associadas à gagueira, localizadas em quatro genes diferentes (GNPTAB, GNPTG, NAGPA e CNTNAP2). Já foram também descritas particularidades no funcionamento e na estrutura do cérebro de pessoas que gaguejam que sequer eram concebidas naquele tempo, como alterações na conectividade da matéria branca e falhas na ativação em regiões do córtex e dos núcleos da base. Todas estas descobertas só se tornaram possíveis mediante o uso de tecnologias disponibilizadas apenas no final do século XX e início do século XXI (PET scan, fMRI, ressonância por tensor de difusão e hibridização genômica comparativa).

(Continua…)

7 - O abismo do silêncio

Ter gagueira é lutar continuamente para não se deixar tragar pelo abismo do silêncio.

Para a pessoa que gagueja, mesmo quando ela está falando de forma fluente, a consciência de que o mecanismo inteiro da fala pode entrar em colapso a qualquer momento está o tempo todo presente.

Felizmente, as alterações neurológicas descobertas na gagueira não implicam necessariamente uma perda total da fluência da fala. Elas implicam uma perda de eficiência na manutenção da fluência, o que é bem diferente. Mas isso contraria profundamente a convicção de pessoas de raciocínio binário, para as quais um defeito neurológico só existe quando ele priva por completo a pessoa de determinada função. No entanto, a gagueira subverte essa lógica. Para a pessoa que gagueja, embora haja um defeito neurológico subjacente à sua dificuldade, a fluência ainda é acessível, só que sem a mesma facilidade e regularidade com que é obtida por alguém que não possui a condição.

Ou seja, para a pessoa que gagueja, mesmo quando ela está falando de forma fluente, a consciência de que o mecanismo inteiro da fala pode entrar em colapso a qualquer momento está o tempo todo presente. Falar – para quem tem gagueira – é como patinar sobre uma camada muito fina de gelo, que a qualquer momento pode se partir. E o medo de que ela se parta não é apenas ilusório. Frequentemente o gelo se abre e a pessoa que gagueja precisa, de alguma forma, encontrar um jeito de não ficar presa no abismo do silêncio.

Por sua característica de ser naturalmente intermitente, o impulso imediato das pessoas, ao ver um distúrbio como a gagueira, é classificá-lo como psicológico. Porém, a realidade é que ela se compõe simultaneamente de dois lados, com o fator físico ou neurológico tendo precedência sobre as implicações psicológicas do distúrbio. Mas a grande maioria das pessoas sempre prefere que as coisas se encaixem em esquemas simples e maniqueístas e sente dificuldade em conciliar lados aparentemente contraditórios de uma mesma questão.

No filme, há um momento em que a história parece marchar numa direção simplista, quando a infância de Bertie começa a ser rememorada sob a batuta de Lionel Logue (o terapeuta que o ajuda a redescobrir sua capacidade de comunicação), e tem-se a ligeira e falsa impressão de que tudo se resume a corrigir as supostas fraquezas psicológicas do rei. Mas o roteiro de David Seidler recusa o lugar-comum e evita a fórmula fácil em favor de uma visão mais verdadeira, porém não menos inspiradora.

(Continua…)

8 - Lembranças dolorosas

Rainha Mãe: 'As lembranças desses episódios ainda são muito dolorosas'.

Elizabeth, a Rainha Mãe, esposa do Rei George VI: “Por favor, não faça isso enquanto eu estiver viva. As lembranças desses episódios ainda são muito dolorosas”.

O roteiro começou a ser escrito ainda na década de 70. Enquanto desenvolvia o projeto, Seidler localizou o último filho vivo de Lionel Logue, Valentine, e ficou muito entusiasmado ao descobrir que ele havia guardado todos os cadernos de anotações do pai, detalhando seu convívio com a família real e as técnicas terapêuticas que ele havia adotado com o rei. Valentine concordou em emprestar o material a Seidler, mas com uma pequena condição: antes de usá-lo no roteiro, Seidler deveria pedir permissão à rainha mãe (a esposa do rei George VI).

Seidler então escreveu uma carta a ela, em busca de aprovação para o projeto, e a resposta que obteve foi a seguinte: “Por favor, não faça isso enquanto eu estiver viva. As lembranças desses episódios ainda são muito dolorosas”. Seidler concordou sem objetar, pois a rainha mãe já estava com mais de 70 anos à época. Muito provavelmente, sua espera seria breve. O que ele não imaginava era que teria de esperar quase três décadas para finalizar seu projeto: a rainha mãe teve longevidade centenária e morreu apenas em 2002, com 101 anos, 28 anos depois do pedido inicial de Seidler.

Como é possível depreender das palavras da Rainha Mãe, “O Discurso do Rei”, produto final da longa espera de Seidler, é mais do que um filme sobre gagueira. Ele dramatiza de forma primorosa a dificuldade de autoaceitação, a dolorosa sensação de possuir uma vida irremediavelmente diferente daquela que se gostaria de ter. O ator Colin Firth, ao comentar a gagueira de seu personagem e a pesada carga de frustrações que ela lhe impôs, disse que o distúrbio, por conta dos calos que coloca na alma, terminou sendo decisivo para tornar o rei mais sensível aos problemas de seus súditos.

“Em seus discursos, ele estava tentando demonstrar solidariedade com milhões de pessoas que não conhecia, estava tentando se conectar ao sofrimento delas. Ele dificilmente teria acesso a esse nível de empatia se estivesse numa posição confortável. Ele estava tentando vencer uma terrível limitação. No momento em que ele, em vez de recusar a missão de ser rei, aceita sua limitação e tem a humildade de fazer o trabalho da forma como consegue, há um grande ato de coragem aí, e as pessoas se identificam com isso”, diz Firth.

(Continua…)

9 - Time compassivo e solidário

Time compassivo e solidário.

Bertie não teria conseguido sozinho. Talvez seja essa a mais fundamental de todas as mensagens do filme. Ele contou com o apoio de um time compassivo e solidário.

Mas Bertie não teria conseguido sozinho. Talvez seja essa a mais fundamental de todas as mensagens do filme. Ele contou com o apoio de um time compassivo e solidário. O time começa com sua esposa, que aceitou se casar somente na terceira proposta e foi, ela própria, uma monarca relutante, que nunca se sentiu muito confortável no cargo. Foi ela que descobriu Lionel Logue, um fonoaudiólogo australiano conhecido por seus métodos pouco convencionais – o tipo de terapeuta que membros da realeza dificilmente consultariam.

Lionel precisou ganhar a confiança de Bertie (como príncipe e depois como rei). Para fazer isso, ele teve de estabelecer uma relação de igualdade entre eles (v. vídeo). E essa não foi uma tarefa simples, já que a confiança de um rei não é algo que se consegue obter de modo fácil ou rápido, ainda mais quando está sendo exigida a remoção da hierarquia. Este foi um teste crucial para a habilidade terapêutica de Lionel.

Lionel Logue aplica a técnica do mascaramento auditivo em Bertie.

Lionel Logue aplicando a técnica do mascaramento auditivo em Bertie. Elo de confiança e igualdade potencializou uso do conhecimento em benefício do paciente.

Sem a relação de confiança e igualdade, sem o laço de amizade que havia entre eles, a transformação de Bertie não teria sido possível. E aqui fica uma lição para médicos, fonoaudiólogos, psicólogos, fisioterapeutas, enfermeiros e cuidadores de toda espécie: Não é a autoridade que fornece os fundamentos para uma boa relação com o paciente e o sucesso em seu tratamento e recuperação, mas sim o vínculo de confiança e de igualdade que conseguimos estabelecer com ele. Sem isso, o conhecimento técnico e científico – outro elemento crucial para o sucesso de um tratamento – torna-se inaplicável.

(Continua…)

10 - Verdade mais inspiradora que a fantasia

Trecho do documentário 'O Verdadeiro Discurso do Rei'.

Diante da história de sucesso da parceria entre Lionel Logue e George VI, muitos ficam tentados a pensar que o rei superou completamente a gagueira, muito embora a verdade seja um tanto diferente. (clique p/ assistir ao vídeo)

George VI manteve a amizade com seu tutor e terapeuta Lionel Logue até fim de sua vida (ele morreu de câncer no pulmão em 1952; Logue morreu no ano seguinte). O rei buscava sua ajuda sempre que precisava fazer pronunciamentos públicos e, em 1937, concedeu a Logue o título de nobreza da Ordem Real Vitoriana, que reconhece serviços prestados à monarquia. Diante da história de sucesso da parceria entre os dois, muitos ficam tentados a pensar que o rei superou completamente a gagueira, muito embora a verdade seja um tanto diferente.

Sobre esse fato, o diretor Tom Hooper comenta: “Teria sido um erro dar ao filme um final clássico de Hollywood, em que ele fica curado e a vida se torna alegre a partir de então”. Quando Hooper foi atrás dos arquivos do rei e ouviu os registros de seus discursos, ficou claro para ele que “a gagueira ainda estava ali, ele ainda estava o tempo todo lutando com ela e não se tratava de um homem que havia sido curado. O que vi foi um homem que tinha aprendido a lidar com sua dificuldade. Mostrá-lo como curado teria sido uma fantasia”.

David Seidler acrescenta: “Esta foi a maior prova da coragem de Bertie: ter aceito o desafio de ser rei mesmo sabendo que a cura era um ideal inalcançável e que a gagueira seria um adversário a acossá-lo permanentemente. Não foi à toa que Lionel Logue disse a Bertie que ele era o homem mais corajoso que ele havia conhecido na vida”. Outra grande prova da coragem de George VI, esta menos ignorada pelos historiadores, foi sua recusa em deixar a Inglaterra no auge da guerra, mesmo depois de ter recebido insistentes convites de asilo diplomático por parte dos governos americano e canadense.

Trailer legendado do filme 'O Discurso do Rei', grande vencedor do Oscar 2011.

Veja trailer legendado do filme “O Discurso do Rei” (The King’s Speech, 2010), grande vencedor do Oscar 2011 com os prêmios de melhor filme, melhor diretor, melhor ator e melhor roteiro.

Como bem demonstra a história e o exemplo do rei que gaguejava, as deficiências podem se transformar em grande fonte de força e determinação mesmo quando (ou especialmente quando) elas nos impõem a morte de idealizações e fantasias. Bertie, ao abandonar o irrealizável desejo de se tornar outra pessoa, paradoxalmente conseguiu a transformação de que tanto precisava, dando-se conta de que, embora a cura não fosse possível, era possível aprender a conviver melhor com seus limites. Ao fim, ele percebeu que há sempre uma coisa pela qual nunca devemos deixar de agradecer: o fato de sermos nós mesmos e não outra pessoa.

Sobre o autor do texto

Hugo Silva é pessoa que gagueja, analista financeiro e, sempre que possível, dedica um pouco de seu tempo para exercer voluntariamente a curadoria digital do Instituto Brasileiro de Fluência (IBF)ONG que desenvolve ações para aumentar o nível de esclarecimento da sociedade sobre gagueira e distúrbios afins, melhorando assim a prevenção, o diagnóstico e o tratamento das desordens de comunicação que afetam a fluência da fala. Clique no link abaixo para acessar o site do Instituto. — organização da sociedade civil reconhecida pela OEA por seu importante trabalho na divulgação de informações a respeito dos distúrbios de fluência da fala. E-mail para contato: hgsilva.ibf at gmail.com

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Entre outros exemplos, isso foi o que aconteceu com os filmes Rain Man e Temple Grandin – que chamaram atenção para o autismo -, Melhor é Impossível – que chamou atenção para o transtorno obsessivo-compulsivo (TOC) -, e Preciosa – que mostrou a cruel realidade do abuso infantil.

A gagueira não é uma falha do indivíduoAgora um novo filme, que estréia no começo de fevereiro no Brasil, joga luz sobre a disfemia (gagueira persistente), um distúrbio de comunicação que por muito tempo foi alvo de preconceitos e incompreensões. O filme se chama O Discurso do ReiClique para ver o trailer legendado do drama “O Discurso do Rei” (The King’s Speech, 2010, Reino Unido), filme com 12 indicações ao Oscar 2011. e ele vem sendo um dos grandes destaques da temporada de premiações do cinema em 2011.

Hoje, a família real britânica aparece com muita frequência nas revistas, jornais e TV. No entanto, no início do século passado, a exposição pública dos membros da monarquia não era tão excessiva. Só que isso começou a mudar drasticamente no final da década de 30, com a invenção do primeiro meio de comunicação de massa em tempo real: o rádio.

E justamente nessa época – de advento do primeiro meio de comunicação de massa e, consequentemente, de maior cobrança nas relações de comunicação do rei com seus súditos –, um príncipe com uma severa dificuldade de fala se tornaria soberano do império britânico.

O príncipe Albert, conhecido como “Bertie” por sua família, tinha gagueira persistente. O distúrbio iniciou na infância e o acompanhou por toda a vida. Por força do ofício, ele precisava constantemente falar em público.O Discurso do Rei - Trailer legendado Ninguém sabia como ajudá-lo a amenizar a dificuldade, até ele começar a trabalhar com o fonoaudiólogo australiano Lionel Logue. A história está retratada no filme O Discurso do ReiClique para ver o trailer legendado do drama “O Discurso do Rei” (The King’s Speech, 2010, Reino Unido), filme com 12 indicações ao Oscar 2011. .

Muitos fonoaudiólogos em todo o mundo, como é o caso do norte-americano Joe Donaher, do Hospital da Criança da Filadélfia (EUA), estão bastante entusiasmados em ver a gagueira sendo mostrada no cinema de uma forma realista.

“Com muita frequência a gagueira é mostrada nos filmes como uma falha de caráter. Mas neste filme a gagueira foi finalmente retratada da forma como ela é”, diz Donaher.

A mensagem do filme O Discurso do Rei“A gagueira é um distúrbio de base neurológica e que muitas vezes possui raízes genéticas. Ninguém gagueja porque quer. A gagueira não é uma falha do indivíduo, e também não é uma falha dos pais”, explica Donaher.

Donaher afirma que os primeiros sinais da gagueira normalmente aparecem entre dois anos e meio e cinco anos de idade. Mais da metade das crianças que manifestam gagueira recuperam-se naturalmente, mas muitas precisam de apoio e tratamento especializado. Se essas crianças forem vítimas de bullying, por exemplo, a gagueira tende a piorar.

Apesar da gagueira, George VI conseguiu ser o líder forte que sua nação precisava durante a II Guerra Mundial.

Donaher, que viu alguns trechos já divulgados do filme, acha que ele será muito inspirador para as pessoas que gaguejam. “A mensagem do filme não é: ‘Se você deixar de gaguejar, conseguirá grandes coisas’. A mensagem é: ‘Você pode conquistar grandes coisas, mesmo tendo gagueira’”, conclui Donaher.

Veja abaixo a reportagem completa, com legendas em português:

Reportagem legendada

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O Discurso do Rei – Entrevista com Colin Firth http://www.gagueiraonline.com.br/blog/2011/01/o-discurso-do-rei-entrevista-com-colin-firth/ http://www.gagueiraonline.com.br/blog/2011/01/o-discurso-do-rei-entrevista-com-colin-firth/#comments Wed, 05 Jan 2011 17:10:16 +0000 Ignês http://www.gagueiraonline.com.br/blog/?p=1262 Quando perguntado pela apresentadora Katie Couric, do programa CBS Evening News, se sabia alguma coisa sobre o rei George VI antes de fazer o papel do monarca britânico no filme “O Discurso do Rei”, o ator Colin Firth saiu-se com a seguinte evasiva: “Acho que a maioria das pessoas da minha geração não se preocupa muito com a família real, a menos que um grande acontecimento venha à tona.”

Para George VI — príncipe Albert ou simplesmente “Bertie” para sua família —, esse grande momento chegou em 1936, quando seu irmão, o rei Eduardo VIII, abdicou do trono para se casar com uma mulher duas vezes divorciada, Wallis Simpson. Enquanto a Inglaterra se preparava para a guerra, Albert se preparava para reinar, não sem antes enfrentar uma batalha mais pessoal: tentar conciliar suas atribuições de rei com uma severa disfemia (gagueira persistente) que o acompanhava desde a infância.

“Vê-lo lutando contra este problema é de cortar o coração”, diz Firth. “Chorei quando vi. É muito comovente, porque não é só a dificuldade, é a coragem com que ele lida com a dificuldade. Ele só vai lá e faz, bloqueia e segue adiante. Ele renasce do silêncio, que devia parecer uma eternidade para ele. E então algo em seu coração alivia ao ver que ele venceu o bloqueio, mas não demora 3 ou 4 palavras até aparecer outro bloqueio.”

A esposa do rei buscou a ajuda do fonoaudiólogo Lionel Logue, interpretado no filme por Geoffrey Rush. “Você olha para o personagem de Geoffrey Rush e pensa: ‘Oh, esse era o cara que eu precisava para mudar minha vida. Ele não desiste’”, diz Firth. “Se encontra um obstáculo, ele descobre um jeito de contorná-lo para tornar este homem mais acessível.” Por meio de seu trabalho com Lionel, o rei lentamente descobre sua força interior, num tempo em que sua nação mais precisava dele.

“Bertie fica fascinado e sente inveja da perigosa habilidade de comunicação de Hitler”, comenta Kouric a respeito de uma cena do filme em que o rei assiste a um vídeo gravado do ditador alemão. “Sabe, acho significativo na cena o fato de ele não entender o que Hitler está dizendo”, diz Firth. “Ele está certo da ameaça que Hitler representa, mas ele está na verdade mais concentrado no brilhantismo do discurso. E pensa: ‘E aqui estou eu, sem poder falar sequer duas palavras no microfone. E do outro lado está esse homem, usando a comunicação com os propósitos mais destrutivos, em um nível global’.” Firth traduz o pensamento do rei George nesse instante como: “Que chance eu tenho? Como seria se eu tivesse essa habilidade?”.

O que ajudou o rei foi uma improvável amizade, que o ensinou como ser ouvido. “É uma história sobre dois homens de coragem: um que não sabia o quanto era corajoso, e o outro que decidiu que tinha de encontrar todas as possíveis formas de alcançar essa coragem no rei”, diz Firth. “As pessoas sabiam que este homem estava enfrentando seus demônios toda vez que tinha que falar para elas. Acho que havia uma percepção de que era algo muito difícil para ele. E sua coragem foi admirada.”

Assista à entrevista legendada com o ator inglês Colin Firth

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Gagueira sem estereótipos http://www.gagueiraonline.com.br/blog/2010/12/gagueira-sem-estereotipos/ http://www.gagueiraonline.com.br/blog/2010/12/gagueira-sem-estereotipos/#comments Wed, 15 Dec 2010 12:31:32 +0000 Ignês http://www.gagueiraonline.com.br/blog/?p=1023 Com a proximidade do lançamento aqui no Brasil do premiado filme The King’s Speech (“O Discurso do Rei”), drama que conta a história do reinado de George VI e de sua luta para discursar à nação mesmo com a gagueira a transformar cada pronunciamento numa batalha, torna-se oportuno falar sobre as dificuldades enfrentadas pelas pessoas que gaguejam e sobre os recursos atualmente disponíveis para lhes fornecer suporte e auxílio.

A gagueira afeta cerca de 60 milhões de pessoas no mundo. No Brasil, estima-se que esse número chegue a quase dois milhões. Apesar da prevalência significativa, a atenção dispensada ao distúrbio ainda é muito pequena, assim como o conhecimento do público sobre ele. Mas o filme The King’s Speech tem tudo para ser um divisor de águas nesse assunto.

O aclamado filme The King’s Speech finalmente oferece à sociedade uma visão madura da gagueira.

Da mesma forma que Rain Man ajudou a atrair atenção para o autismo e Melhor é Impossível desfez a indiferença pelo TOC, The King’s Speech tem o potencial de remover a negligência em torno da gagueira e retirar dela os pesados estereótipos que foram se acumulando ao longo de décadas de representação caricata no cinema e na TV.

Pôster do filme The King's Speech (O Discurso do Rei)

Clique na imagem acima para ampliar o pôster. Clique no botão abaixo para ler a sinopse do filme e ver dois trailers e um clipe com legendas em português.Mais conteúdo

O filme trata principalmente da gagueira do rei George VI e de sua amizade com o fonoaudiólogo australiano Lionel Logue, contratado para ajudá-lo a lidar melhor com sua dificuldade de fala. George VI reinou durante 15 anos, de 1937 a 1952, e seu tempo no poder coincidiu com um dos períodos mais turbulentos da história da Inglaterra. Os desafios daquele momento histórico, somados ao desafio pessoal de um rei que precisava vencer de qualquer forma a própria limitação, emprestam ao filme uma dramaticidade singular. A forma como o ator Colin Firth retrata a gagueira do personagem impressiona pela verossimilhança e coloca seu trabalho a léguas de distância das encenações estereotipadas que nos acostumamos a ver do distúrbio no cinema.

The King’s Speech trará ao público da nova geração a oportunidade de conhecer a história inspiradora e pouco conhecida do rei George VI. Ele continua a ser um modelo formidável de determinação e perseverança para as pessoas que gaguejam. Seus discursos mantiveram viva a esperança do povo britânico durante o tempo sombrio da II Guerra Mundial. Foi ele que inspirou meu pai, Malcolm Fraser, a fundar a Stuttering Foundation of America”, observa Jane Fraser, atual presidente da fundação que se dedica a prestar assistência e esclarecimento às pessoas que gaguejam nos EUA.

Um dos importantes trabalhos realizados pela Stuttering Foundation of America é difundir aquilo que a pesquisa científica atual está descobrindo sobre a gagueira, como forma de desfazer os mitos e equívocos que ainda povoam a visão do senso comum sobre o distúrbio. No Brasil, um trabalho semelhante vem sendo realizado de forma muito competente pelo Instituto Brasileiro de FluênciaONG que desenvolve ações para aumentar o nível de esclarecimento da sociedade brasileira sobre gagueira e distúrbios afins, melhorando assim a prevenção, o diagnóstico e o tratamento das desordens de comunicação que afetam a fluência da fala. Clique no link abaixo para acessar o site do Instituto. . Tanto lá como cá, um dos equívocos mais frequentes sobre a gagueira persistente é a percepção errada de que ela resultaria de problemas emocionais, nervosismo ou ansiedade. “A ciência moderna tem provado que a gagueira possui uma causa biológica e, a partir do maior discernimento que se tem hoje sobre a verdadeira origem da dificuldade, os métodos de tratamento tem se tornado cada vez mais efetivos”, comenta Fraser.

Sobre a causa da gagueira do Rei George VIEntre os pesquisadores que estudam a gagueira, a expectativa é de que o filme ajude a desconstruir preconceitos e a modificar o quadro geral de desinformação que prejudica o entendimento social do distúrbio. Como consequência disso, eles esperam que o filme contribua também para diminuir o medo da ridicularização que leva as pessoas que gaguejam a querer ocultar seu distúrbio.

“No filme, vemos que o rei consegue muitos benefícios a partir do tratamento fonoaudiológico e das técnicas de respiração ensinadas por Lionel Logue, mas é importante destacar que ele nunca se considera curado. O tratamento consegue apenas torná-lo mais apto a lidar com sua gagueira, mas a dificuldade sempre irá acompanhá-lo”, comenta Kate Watkins, neurocientista da Universidade de Oxford. “Exercícios de respiração ainda são muito usados para ajudar as pessoas que gaguejam a conseguir mais fluência”, acrescenta a pesquisadora, “mas o filme se equivoca quando tenta vender a antiga ideia de que a gagueira nasce de eventos traumáticos na infância. Essa noção já está superada.”

Sobre a pouca atenção que a sociedade tem dedicado à gagueiraSoo-Eun Chang, pesquisadora da Universidade de Michigan, diz que a performance de Colin Firth é muito autêntica. “Ele não comete os tradicionais exageros que outros atores fazem quando encenam um personagem com gagueira. A maioria dos filmes anteriores mostravam as pessoas que gaguejam como esquisitas, nervosas, ansiosas e pouco inteligentes”, ela diz. “É muito saudável o contraponto mostrado em The King’s Speech. A gagueira pode ser um distúrbio profundamente desgastante e impactante. Crianças que o possuem podem ser vítimas de formas terríveis de bullying nas escolas. E embora ela possa afetar seriamente a vida de uma pessoa, a atenção e o interesse que a sociedade tem dedicado à gagueira são muito pequenos quando comparamos com o que tem sido feito pela dislexia e pelo autismo, por exemplo.”

Nas pessoas que gaguejam, ávidas há muito tempo por mais respeito e compreensão da sociedade, o filme deve ressoar de forma muito particular, pois pela primeira vez elas terão motivo para sentir verdadeira empatia com um personagem que gagueja. Depois de décadas de representação negativa da gagueira no cinema, é alentador para as pessoas que possuem a condição poder revisitar a história inspiradora de George VI e enxergar ali um modelo no qual podem se espelhar e se orgulhar. Sem dúvida alguma, vão ser elas que estarão nos primeiros lugares das filas dos cinemas em busca de ingressos para o filme e também de uma oportunidade tardia de finalmente se sentirem um pouco mais redimidas em sua dignidade.

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Destaques do Neuroscience 2010 http://www.gagueiraonline.com.br/blog/2010/11/gagueira-neurociencia-congresso-cerebro-comunicacao/ http://www.gagueiraonline.com.br/blog/2010/11/gagueira-neurociencia-congresso-cerebro-comunicacao/#comments Mon, 22 Nov 2010 22:19:42 +0000 Ignês http://www.gagueiraonline.com.br/blog/?p=709 Novos estudos demonstram que a comunicação requer a integração de um conjunto de processos e circuitos cerebrais mais complexo do que se imaginava anteriormente. Pesquisas divulgadas no Neuroscience 2010, o 40º congresso anual da SfN (Society for Neuroscience), trouxeram insights reveladores sobre distúrbios da comunicação como a gagueira.

San Diego, 16 nov. 2010 – Novos e importantes estudos sobre a comunicação humana foram divulgados no 40º encontro anual da SfN (Society for Neuroscience), realizado este ano em San Diego (Califórnia, EUA). Os dados dos estudos trouxeram informações reveladoras sobre a extensa rede de conexões utilizadas pelo cérebro em tarefas de comunicação e forneceram novos insights sobre como o cérebro produz e processa linguagem, fala, sons e sotaques.

As pesquisas também investigaram as diferenças existentes no cérebro de pessoas com dificuldades de fala e linguagem, como a gagueira, sugerindo novas e promissoras vias de tratamento. Todas as novas descobertas foram apresentadas durante a edição 2010 do Neuroscience, congresso anual promovido pela SfN, que é atualmente considerado a maior e mais importante fonte mundial de novidades sobre pesquisas relacionadas ao cérebro e à saúde mental.

A comunicação depende de uma série complexa de tarefas, que vão desde o processamento e a compreensão de sons até a produção de movimentos articulatórios organizados e sequenciados. Um melhor entendimento dos circuitos cerebrais envolvidos nessas tarefas pode beneficiar cerca de 900 milhões de pessoas no mundo todo que hoje sofrem de alguma deficiência de comunicação. Resumidamente, as pesquisas divulgadas no congresso Neuroscience 2010 mostraram que:

  • Baixe o resumo em PDFA rede de conexões cerebrais vitais para compreensão e produção de linguagem é mais extensa do que se acreditava anteriormente. Os pesquisadores identificaram novas vias neurais relacionadas à fala através do mapeamento de áreas de linguagem no cérebro de pessoas com e sem dificuldades de comunicação (Nina Dronkers, Ph.D., abstract 837.13, v. resumo no PDF em anexo).
  • Resumo 2Pessoas que gaguejam exibem um padrão atípico de atividade no cérebro mesmo quando estão apenas lendo ou escutando sons linguísticos, o que sugere que a gagueira se deve a problemas mais fundamentais que ocorrem durante o processamento da fala e da linguagem, e não apenas durante sua produção (Kate Watkins, Ph.D., abstract 563.19, v. resumo no PDF em anexo).
  • Resumo 3As pessoas processam palavras pronunciadas em seu sotaque nativo de uma forma diferente daquela que fazem com palavras pronunciadas em outros sotaques, o que pode explicar as dificuldades de comunicação e os preconceitos  enfrentados por pessoas que falam com um sotaque diferente do usual em um determinado meio social (Patricia Bestelmeyer, Ph.D., abstract 169.13, v. resumo no PDF em anexo).
  • Resumo 4Mulheres que gaguejam possuem em suas conexões cerebrais algumas particularidades que não estão presentes no cérebro de homens que gaguejam. Essa descoberta pode ajudar a explicar por que a prevalência da gagueira na população adulta é cerca de cinco vezes maior em homens do que em mulheres (Soo-Eun Chang, Ph.D., abstract 790.9, v. resumo no PDF em anexo).
  • Resumo 5Os neurônios de pássaros canoros têm sensibilidade aguçada a sons comunicativos e respondem seletivamente a eles, mesmo quando estes sons estão misturados a um ruído de fundo. Essa descoberta ajuda a explicar como as pessoas conseguem focar sua atenção em uma conversação mesmo estando em uma sala barulhenta, um fenômeno conhecido como “cocktail party effect” (Frederic Theunissen, Ph.D., abstract 275.17, v. resumo no PDF em anexo).

“A comunicação é o nosso meio de expressar pensamentos, sentimentos e emoções – e as pesquisas de hoje não só fornecem valiosas informações sobre como o cérebro lida com esta tarefa vital, mas também nos dão um nível de compreensão mais adequado para diagnosticar e tratar melhor os problemas de comunicação”, disse o moderador da conferência de imprensa promovida pela SfN, Steven L. Small (M.D, Ph.D da Universidade de Chicago), especialista em neurociência da linguagem.

Nota dos organizadores do congresso: As pesquisas apresentadas durante o Neuroscience 2010 foram financiadas tanto por órgãos públicos – como o National Institute of Health dos EUA –, quanto por organizações privadas e filantrópicas.

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Veja os vídeos do DIAG 2010 http://www.gagueiraonline.com.br/blog/2010/11/selecao-videos-diag-2010/ http://www.gagueiraonline.com.br/blog/2010/11/selecao-videos-diag-2010/#comments Mon, 01 Nov 2010 17:02:49 +0000 Ignês http://www.gagueiraonline.com.br/blog/?p=611 Veja abaixo a seleção de vídeos exibidos no evento presencial do Dia Internacional de Atenção à Gagueira 2010. A seleção é composta por quatro vídeos: 1) A descoberta dos primeiros genes da gagueira; 2) Aprimorando o diagnóstico precoce de desordens do cérebro; 3) Gagueira na infância: como proceder?; 4) A bela lição do grupo Our Time: “Respeite o tempo da criança que gagueja”. As legendas são uma cortesia do IBF.

Playlist de vídeos do Dia Internacional de Atenção à Gagueira 2010

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Comercial do DIAG na Globo http://www.gagueiraonline.com.br/blog/2010/10/gagueira-globo-diag-2010/ http://www.gagueiraonline.com.br/blog/2010/10/gagueira-globo-diag-2010/#comments Tue, 05 Oct 2010 19:41:31 +0000 Ignês http://www.gagueiraonline.com.br/blog/?p=1 v. vídeo), gentilmente produzido pela equipe de propaganda da Globo, será novamente veiculado este ano em cadeia nacional e internacional durante os 15 dias que antecedem o dia 22 de outubro. A parceria vem sendo mantida desde 2006...]]>

A campanha 2010 do Dia Internacional de Atenção à Gagueira voltará a contar com o importante apoio da Rede Globo de Televisão.

O comercial da campanha brasileira do DIAG (v. vídeo abaixo), gentilmente produzido pela equipe de propaganda da Globo, será novamente veiculado este ano em cadeia nacional e internacional durante os 15 dias que antecedem o dia 22 de outubro. A parceria vem sendo mantida desde 2006 e tem trazido excelentes resultados para a remoção da negligência, da desinformação e do preconceito que ainda dificultam a vida das pessoas com gagueira no Brasil.

Para informações mais detalhadas sobre a campanha, visite o site do Instituto Brasileiro de Fluência: http://www.gagueira.org.br

Clique e veja abaixo o comercial da Rede Globo para o DIAG


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Os Genes da Gagueira http://www.gagueiraonline.com.br/blog/2010/10/gagueira-genes-descoberta/ http://www.gagueiraonline.com.br/blog/2010/10/gagueira-genes-descoberta/#comments Tue, 05 Oct 2010 16:25:59 +0000 Ignês http://www.gagueiraonline.com.br/blog/?p=258 linkage genético que, pela primeira vez na história, trouxe dados que nos permitem finalmente afirmar: hoje sabemos uma das causas da gagueira. A pesquisa, publicada em uma das mais prestigiadas revistas de medicina do mundo, o The New England Journal of Medicine, revelou a existência de mutações em...]]>

Pesquisadores do NIH divulgaram em fevereiro de 2010 o resultado de um estudo de linkage genético que, pela primeira vez na história, trouxe dados que nos permitem finalmente afirmar: hoje sabemos uma das causas da gagueira.

A pesquisa, publicada em uma das mais prestigiadas revistas de medicina do mundo, o The New England Journal of Medicine, revelou a existência de mutações em três importantes genes envolvidos na regulação do metabolismo dos lisossomos, organelas celulares fundamentais para a manutenção da saúde dos neurônios responsáveis pelo controle da fala. Assista abaixo aos vídeos da CNN e da Globo News que noticiaram a descoberta:

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Segredos da Matéria Branca http://www.gagueiraonline.com.br/blog/2010/10/gagueira-cerebro-materia-branca/ http://www.gagueiraonline.com.br/blog/2010/10/gagueira-cerebro-materia-branca/#comments Mon, 04 Oct 2010 21:57:41 +0000 Ignês http://www.gagueiraonline.com.br/blog/?p=129 Nos últimos anos, com a contínua sofisticação e aperfeiçoamento dos métodos de captura de neuroimagens, cada vez mais estudos científicos começaram a descobrir a existência de diferenças físicas na organização do cérebro de pessoas que gaguejam. Até pouco tempo atrás, a grande dúvida era saber se essas diferenças eram resultado do convívio com a gagueira ou se elas já estavam presentes desde a infância, atuando como fator de predisposição e deflagração do distúrbio. Dois estudos recentes ofereceram respostas para esta dúvida. A pesquisadora Kate Watkins, autora do texto abaixo, é a líder de um desses estudos.

Por Kate Watkins*

No começo deste ano, dois grupos de pesquisa sobre gagueira publicaram estudos de neuroimagem em jovens adultos, adolescentes e crianças que gaguejam. Esses estudos revelaram anormalidades funcionais e estruturais no cérebro dessas pessoas. O objetivo deles era fornecer um melhor entendimento das causas da gagueira e ajudar a explicar por que algumas crianças recuperam-se da gagueira, enquanto outras continuam a gaguejar. Considerando o resultado dos dois estudos em conjunto, estamos começando a responder estas perguntas.

Em nosso artigo, publicado na revista Brain, descrevemos diferenças na organização física das conexões entre algumas áreas do cérebro em um grupo de adolescentes e pessoas jovens que gaguejam (com idade variando de 14 a 27 anos). Essas diferenças explicaram por que este grupo de pessoas exibia uma atividade reduzida em algumas regiões do córtex cerebral durante a produção de fala.

Outro grupo de pesquisadores (Chang et al.) publicou descobertas muito similares na revista NeuroImage. Estudando crianças na faixa etária de 9 a 12 anos, eles descobriram que, no grupo com gagueira persistente, as conexões de matéria branca estavam rompidas na mesma região identificada em nosso estudo. Já no grupo constituído por crianças que tinham se recuperado da gagueira, a matéria branca estava íntegra. Eles também encontraram mudanças no volume da matéria cinzenta cortical, tanto em crianças com gagueira persistente quanto em crianças que tinham se recuperado da gagueira, e apontaram diferenças em relação ao cérebro de adultos que gaguejam.

Imagens obtidas pelo estudo de difusão de Watkins. A primeira imagem mostra o padrão de atividade durante a produção de fala no grupo-controle fluente (laranja) e no grupo de pessoas jovens que gaguejam (azul). A segunda imagem mostra as regiões subjacentes de matéria branca (em laranja) nas quais pessoas que gaguejam apresentam uma ruptura nos tratos de fibras nervosas logo abaixo das áreas corticais que não estão ativadas.

Conexões Partidas

Esses estudos usaram aparelhos modernos de ressonância magnética, que fornecem imagens mais detalhadas da estrutura do cérebro com base no movimento dos átomos de hidrogênio das moléculas de água. Tanto em nosso estudo quanto no de Chang, utilizou-se um novo tipo de ressonância, conhecido como imageamento por tensor de difusão (DTI ressonance), para investigar a organização das conexões de matéria branca no cérebro.

A matéria branca é responsável pela conexão entre as diversas áreas do sistema nervoso central. Ela é chamada de branca porque é constituída principalmente por um tecido gorduroso conhecido como mielina. Este revestimento gorduroso fornece isolamento para as fibras que conectam as diferentes regiões do cérebro e também aumenta a velocidade de transmissão dos sinais elétricos entre essas regiões. Em razão de o tecido ser gorduroso, as moléculas de água não têm liberdade total de movimento na matéria branca. A restrição para a mobilidade das moléculas ocorre principalmente na direção perpendicular ao feixe de fibras, e menos na direção longitudinal (ao longo do comprimento do feixe). Assim, ao medir os diminutos movimentos das moléculas de água, podemos obter imagens que mostram como as fibras estão orientadas.

Ambos os estudos descobriram que os feixes de fibras normalmente bem alinhados que conectam as áreas do cérebro envolvidas na produção de fala estavam rompidos em pessoas jovens que gaguejam. Esta ruptura provavelmente reduz a eficiência da comunicação entre as áreas envolvidas no processamento da fala.

To be continued…

*Kate Watkins é professora de psicologia experimental na Universidade de Oxford e pesquisadora do Centre for Functional Magnetic Imaging of the Brain (FMRIB). Para mais informações sobre seu trabalho e uma lista completa de artigos publicados pela pesquisadora, visite sua página no Departamento de Neurologia Clínica da Universidade de Oxford.

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O Grande Erro de W. Johnson http://www.gagueiraonline.com.br/blog/2010/10/gagueira-estudo-monstro-johnson/ http://www.gagueiraonline.com.br/blog/2010/10/gagueira-estudo-monstro-johnson/#comments Sun, 03 Oct 2010 23:43:25 +0000 Ignês http://www.gagueiraonline.com.br/blog/?p=224 Crianças adquirem gagueira quando são rotuladas de “gagas”? Em 1938, o fonoaudiólogo Wendell Johnson concebeu um controvertido projeto de pesquisa para comprovar esta teoria, batizada por ele mesmo de teoria diagnosogênica. No entanto, quando os resultados do experimento começaram a desmentir sua hipótese, ele simplesmente decidiu ignorar os dados que estavam emergindo da pesquisa para preservar seu prestígio pessoal e sua reputação acadêmica, relegando a décadas de obscuridade um dos estudos mais antiéticos da história da ciência e, sem dúvida, a maior mancha de toda a sua carreira.

Leia abaixo uma reportagem do jornal The New York Times que traz um relato completo sobre este caso, que ficou conhecido na mídia norte-americana como “O Estudo Monstro”.

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