Gagueira sem estereótipos

Com a proximidade do lançamento aqui no Brasil do premiado filme The King’s Speech (“O Discurso do Rei”), drama que conta a história do reinado de George VI e de sua luta para discursar à nação mesmo com a gagueira a transformar cada pronunciamento numa batalha, torna-se oportuno falar sobre as dificuldades enfrentadas pelas pessoas que gaguejam e sobre os recursos atualmente disponíveis para lhes fornecer suporte e auxílio.

A gagueira afeta cerca de 60 milhões de pessoas no mundo. No Brasil, estima-se que esse número chegue a quase dois milhões. Apesar da prevalência significativa, a atenção dispensada ao distúrbio ainda é muito pequena, assim como o conhecimento do público sobre ele. Mas o filme The King’s Speech tem tudo para ser um divisor de águas nesse assunto.

O aclamado filme The King’s Speech finalmente oferece à sociedade uma visão madura da gagueira.

Da mesma forma que Rain Man ajudou a atrair atenção para o autismo e Melhor é Impossível desfez a indiferença pelo TOC, The King’s Speech tem o potencial de remover a negligência em torno da gagueira e retirar dela os pesados estereótipos que foram se acumulando ao longo de décadas de representação caricata no cinema e na TV.

Pôster do filme The King's Speech (O Discurso do Rei)

Clique na imagem acima para ampliar o pôster. Clique no botão abaixo para ler a sinopse do filme e ver dois trailers e um clipe com legendas em português.Mais conteúdo

O filme trata principalmente da gagueira do rei George VI e de sua amizade com o fonoaudiólogo australiano Lionel Logue, contratado para ajudá-lo a lidar melhor com sua dificuldade de fala. George VI reinou durante 15 anos, de 1937 a 1952, e seu tempo no poder coincidiu com um dos períodos mais turbulentos da história da Inglaterra. Os desafios daquele momento histórico, somados ao desafio pessoal de um rei que precisava vencer de qualquer forma a própria limitação, emprestam ao filme uma dramaticidade singular. A forma como o ator Colin Firth retrata a gagueira do personagem impressiona pela verossimilhança e coloca seu trabalho a léguas de distância das encenações estereotipadas que nos acostumamos a ver do distúrbio no cinema.

The King’s Speech trará ao público da nova geração a oportunidade de conhecer a história inspiradora e pouco conhecida do rei George VI. Ele continua a ser um modelo formidável de determinação e perseverança para as pessoas que gaguejam. Seus discursos mantiveram viva a esperança do povo britânico durante o tempo sombrio da II Guerra Mundial. Foi ele que inspirou meu pai, Malcolm Fraser, a fundar a Stuttering Foundation of America”, observa Jane Fraser, atual presidente da fundação que se dedica a prestar assistência e esclarecimento às pessoas que gaguejam nos EUA.

Um dos importantes trabalhos realizados pela Stuttering Foundation of America é difundir aquilo que a pesquisa científica atual está descobrindo sobre a gagueira, como forma de desfazer os mitos e equívocos que ainda povoam a visão do senso comum sobre o distúrbio. No Brasil, um trabalho semelhante vem sendo realizado de forma muito competente pelo Instituto Brasileiro de FluênciaONG que desenvolve ações para aumentar o nível de esclarecimento da sociedade brasileira sobre gagueira e distúrbios afins, melhorando assim a prevenção, o diagnóstico e o tratamento das desordens de comunicação que afetam a fluência da fala. Clique no link abaixo para acessar o site do Instituto. . Tanto lá como cá, um dos equívocos mais frequentes sobre a gagueira persistente é a percepção errada de que ela resultaria de problemas emocionais, nervosismo ou ansiedade. “A ciência moderna tem provado que a gagueira possui uma causa biológica e, a partir do maior discernimento que se tem hoje sobre a verdadeira origem da dificuldade, os métodos de tratamento tem se tornado cada vez mais efetivos”, comenta Fraser.

Sobre a causa da gagueira do Rei George VIEntre os pesquisadores que estudam a gagueira, a expectativa é de que o filme ajude a desconstruir preconceitos e a modificar o quadro geral de desinformação que prejudica o entendimento social do distúrbio. Como consequência disso, eles esperam que o filme contribua também para diminuir o medo da ridicularização que leva as pessoas que gaguejam a querer ocultar seu distúrbio.

“No filme, vemos que o rei consegue muitos benefícios a partir do tratamento fonoaudiológico e das técnicas de respiração ensinadas por Lionel Logue, mas é importante destacar que ele nunca se considera curado. O tratamento consegue apenas torná-lo mais apto a lidar com sua gagueira, mas a dificuldade sempre irá acompanhá-lo”, comenta Kate Watkins, neurocientista da Universidade de Oxford. “Exercícios de respiração ainda são muito usados para ajudar as pessoas que gaguejam a conseguir mais fluência”, acrescenta a pesquisadora, “mas o filme se equivoca quando tenta vender a antiga ideia de que a gagueira nasce de eventos traumáticos na infância. Essa noção já está superada.”

Sobre a pouca atenção que a sociedade tem dedicado à gagueiraSoo-Eun Chang, pesquisadora da Universidade de Michigan, diz que a performance de Colin Firth é muito autêntica. “Ele não comete os tradicionais exageros que outros atores fazem quando encenam um personagem com gagueira. A maioria dos filmes anteriores mostravam as pessoas que gaguejam como esquisitas, nervosas, ansiosas e pouco inteligentes”, ela diz. “É muito saudável o contraponto mostrado em The King’s Speech. A gagueira pode ser um distúrbio profundamente desgastante e impactante. Crianças que o possuem podem ser vítimas de formas terríveis de bullying nas escolas. E embora ela possa afetar seriamente a vida de uma pessoa, a atenção e o interesse que a sociedade tem dedicado à gagueira são muito pequenos quando comparamos com o que tem sido feito pela dislexia e pelo autismo, por exemplo.”

Nas pessoas que gaguejam, ávidas há muito tempo por mais respeito e compreensão da sociedade, o filme deve ressoar de forma muito particular, pois pela primeira vez elas terão motivo para sentir verdadeira empatia com um personagem que gagueja. Depois de décadas de representação negativa da gagueira no cinema, é alentador para as pessoas que possuem a condição poder revisitar a história inspiradora de George VI e enxergar ali um modelo no qual podem se espelhar e se orgulhar. Sem dúvida alguma, vão ser elas que estarão nos primeiros lugares das filas dos cinemas em busca de ingressos para o filme e também de uma oportunidade tardia de finalmente se sentirem um pouco mais redimidas em sua dignidade.

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2 Comments

  1. Ansioso pelo filme. E parabéns pelo site/blog. É um excelente trabalho.

  2. Roger,

    Eu, assim como toda equipe que trabalha no IBF (www.gagueira.org.br), também estamos muito ansiosos pela chegada do filme no Brasil. Hoje, 16/01/2011, esperamos que o filme receba o merecido reconhecimento no Globo de Ouro, e que também tenha a mesma visibilidade no Oscar, para que, desta forma, a gagueira passe a ser tratada com cada vez mais seriedade e as pessoas que gaguejam tenham mais compreensão e respeito.

    Obrigada pelo elogio ao site/blog.

    Abraços,
    Ignês.

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